Quarenta e dois do segundo tempo [Rubem Penz]

Posted on 01/05/2015

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Rubem Penz*

– Marcelinho sempre foi um rapaz bom, mas tinha lá suas coisas. Poucas coisas, é certo. Nenhuma grande coisa… Coisinhas.

Marcelinho me confessou, por exemplo, que:

Gostava de sentar-se demoradamente ao trono com a porta aberta, vendo TV;

Cortava as unhas onde estivesse: na mesa de jantar, no sofá da sala, na cama, até no banheiro (desde que de porta aberta, espiando a TV);

Implicava com os pelos do nariz e ficava tentando puxá-los a qualquer momento;

Deixava os chinelos em qualquer lugar da casa;

Pegava novo copo no armário para qualquer gole d’água, deixando-o na pia. Isso cinco ou seis vezes ao dia, por baixo;

Antes de se decidir sobre o que assistir na TV, trocava de canal a cada 2,7 segundos, em média;

Tamborilava uma música que estava na sua cabeça. Se mandado parar com os dedos, batia os dentes. Se mandado parar com os dentes, piscava e sacudia a cabeça;

Separava ordenadamente todos os cadernos do jornal de domingo, espalhando um em cada peça da casa (o caderno de esportes sempre no banheiro, para ser lido de porta aberta, espiando a TV);

Aí chegou Anabel. A linda e doce Anabel.

A partir de Anabel, a porta do banheiro passou a ser fechada até para urinar. Pedaços de unha ficavam todos numa toalha que repousava ao seu colo (toalha proibida de sair do banheiro). Os pelos do nariz foram aparados periodicamente com específica tesourinha sem ponta. Os chinelos, fora do pé, ocuparam sempre na lateral da cama. O copo de beber água foi apresentado ao escorredor (depois de enxaguado). O controle remoto migrou para um móvel em cuja base concentrou o jornal de domingo.

A ordem imperou por longos e harmoniosos sete anos, sob o olhar vigilante da linda e doce Anabel, e o piar fino do bom Marcelinho. Até o dia em que coincidiu uma final de campeonato transmitida ao vivo pela TV com uma dor de barriga lancinante em Marcelinho, tudo aos 42 minutos do segundo tempo.

– Senhor advogado, por favor, por favor. Poupe nosso tempo. Acredito que seja importante deixar o júri ao par da vida pregressa do réu. Mas isso dificilmente explicará aquela tesourinha que aparece na radiografia da vítima…

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*Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro de estreia, O Y da questão e outras crônicas, foi finalista dos prêmios Açorianos de Literatura e Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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