Receita de paciência [Daniel Cariello]

Posted on 30/04/2015

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Daniel Cariello*

Um dos meus piores pesadelos havia se tornado realidade: precisaria enfrentar a burocracia carioca, em uma ida à Receita Federal. Já estava com tonteira e comichões antes de sair de casa. No entanto, para minha surpresa, cheguei lá e fui prontamente atendido.

– Pois não, senhor, posso ajudar?
– Eu preciso tirar o CPF da minha filha.
– E cadê?
– O CPF? Ué, vim tirar.
– Não, a menina.
– Tá na escola, tem 4 anos.
– E pra quê diabos você quer tirar o CPF de uma menina de 4 anos?
– Eu não quero. Quem quer é o convênio médico, que, sob o pretexto de cuidar da saúde dela, fica abusando da minha, me pedindo pra enfrentar o monstro da burocracia carioca.
– Olha, não precisa se assustar. Pega essa senha e entra direto na sala, não tem ninguém esperando.
– Como assim?
– Deu sorte, não tem ninguém agora, entra lá.

Entrei, quase sorrindo, tirando os papéis do bolso e esticando para a senhora, que parecia estar sentada em sua cadeira há 3 décadas, sem se levantar.

– Senhora, vim tirar o…
– Já foi aos Correios?
– A senhora não está entendendo, não vim enviar uma carta, mas tirar o…
– Tem que ir aos Correios, dar entrada no processo.
– Eu não preciso entrar, só preciso sair com o…
– Correios. Paga uma taxa, faz o registro e volta aqui.
– Venho direto?
– Direto? Hahahahaha! Claro que não.
– Claro que não…
– Precisa pegar outra senha e retornar.

Fui aos Correios.

– Senhora, preciso fazer o registro do…
– Quer uma Tele Sena?
– O quê?
– Tele Sena, 500 paus no bolso, na hora, se ganhar.
– Não quero Tele Sena. Quero tirar o CPF da minha filha.
– Cadela?
– Não, não é um cachorro, é uma menina.
– Então, cadela, sua filha?
– Ah, tá na escola.
– Tem que me mostrar a certidão de nascimento e pagar uma taxa .
– Aqui.
– Pronto. Agora, é só voltar na Receita.

Como em um milagre às avessas, a fila da triagem, inexistente 10 minutos antes, havia se transformado em transamazônica. Só me restou entrar no fim e aguardar. E aguardar. E aguardar. E…

– Pois, não, senhor, posso… Ih, maluco, você de novo?
– É, me mandaram pros Correios, pagar uma taxa. Lá, tentaram me vender uma Tele Sena e ainda chamaram minha filha de cachorra.
– A Tele Sena de 500 paus no bolso, na hora?
– A própria.
– Pô, tenho que comprar a minha.
– Mas não é por isso que fui lá.
– É verdade. Foi pelo CPF dela, né?
– É. Ainda bem que aqui não tem fila no atendimento.
– Não tinha, agora tem, e das sinistras.
– Como assim?
– Chegou uma cabeçada de uma vez. Deu ruim.
– Deu ruim total…
– Aqui seu número. Só aguardar ali, na salinha.

Na salinha espartana, havia apenas um guardinha na porta, tirando catota do nariz, umas cadeiras quebradas e desalinhadas, uns infelizes, como eu, aguardando a vez e uma televisão escura que de vez em quando mostrava uma senha correndo pela tela e batendo em ricochete em seus limites, ao mesmo tempo que emitia barulho de fatality de video game de luta, não sei se avisando que um sortudo havia sido chamado ou um infeliz havia morrido na espera.

Havia também, quase escondido, um cartaz avisando: “Prezados usuários, o tempo máximo de espera é de 30 minutos. Lei Estadual 4223/2003”. Como não era chamado, fui falar com o guardinha a respeito.

– Senhor, já estou aqui há uma eternidade e meia.
– É?
– É.
– Legal.
– Super. Pela lei, o tempo máximo de espera não é de meia hora?

Ele tirou a mão do nariz, colocou-a na barriga e soltou uma sonora gargalhada.

– Ha ha ha ha. Essa é boa, meia hora! Tá vendo aquele senhor ali? – E apontou para um sujeito encostado na parede, coberto por teias de aranha – Ele também acreditou nessa história. Ela não é demais? Ha ha ha ha!

Já meio tonto, como se visse uma miragem, visualizei atrás do guardinha a minha senha na tela, enquanto ouvia o barulho de fatality. Conferi duas vezes antes de conseguir me dirigir à salinha de atendimento, onde a mesma senhora, sentada havia 3 décadas e 3 horas, me aguardava.

– Vim fazer o…
– Foi aos Correios?
– Fui.
– Cadê o comprovante?
– Aqui.

Ela olhou, conferiu, virou o papel e disse.

– Olha, tá faltando…

Enquanto eu desmaiava, escutava a voz dela sumindo, completando a frase: “…nada, dessa vez tá faltando nada, vou providenciar seu do cu men…”.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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