Uma barba, duas barbas, três barbas [Marco Antonio Martire]

Posted on 29/04/2015

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(Imagem: Marcelo Oliveira) 

Marco Antonio Martire*

– Sua barba ficou bem legal.

– Minha barba?

– É, tá ótima.

– Mas eu já tenho esta barba há anos…

– Nem reparei, devia estar mal cuidada.

– Agora virou moda, né?

– Que moda? Eu não ligo para esse lance de moda.

– Agora está na moda ter barba.

– Jura? Não sabia, não ligo para isso.

– Então por que nunca elogiou a minha barba?

– Estou elogiando agora.

– Agora que está na moda.

– Pô, mas você tem fixação com essa ideia de moda.

– Eu não, nunca tive.

– Deixou crescer a barba pra entrar na moda.

– Sempre deixei ela crescida.

– Tudo bem se você quis seguir a moda, não faz mal.

– Eu não fiz isso.

– Qual o seu problema com a moda?

– Nenhum. Tirando o fato de que nunca tinham reparado na minha barba e agora querem me ensinar como cuidar dela, não tenho problema nenhum.

– Olhando mais de perto, ela está é um pouco mal cuidada.

– Ela está bem limpinha.

– Se não curte cuidar, é melhor aparar.

– Vê se esquece a minha barba.

– Careca não fica bem de barba, parece que quer compensar a falta de cabelo em cima com um monte de cabelo embaixo.

– Eu já tinha barba quando não era careca.

– Careca e barba não combinam.

– É a moda outra vez.

– Careca tem que andar raspado. É mais bonito, realça o rosto, a pele.

– Tem que…?

– Não é uma exigência, é uma questão de bom gosto.

– Mas você não disse que a barba estava legal?

– Não é porque todo mundo está usando barba que você tem que usar também. Tenha personalidade.

– Tiro então? Não deixo nem o bigode?

– Tira também o bigode, só o bigode fica horroroso.

– Mas eu curto a minha barba.

– Você sempre do contra. Precisa ter a personalidade certa pra usar uma barba como essa.

– A minha está errada?

– Digamos que não me convence.

– A personalidade ou a barba?

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Marco Antonio Martire nasceu no Brasil em 1973 e formou-se em Comunicação Social pela UFRJ. Seu livro de estréia, Capoeira angola mandou chamar, ganhou o Prêmio Lucilo Varejão para obra inédita concedido pelo Conselho Municipal de Cultura da Cidade do Recife, tendo sido publicado em 2000. Marco edita suas obras de forma independente desde 2012 e publica suas crônicas no BLOGUI DO MARCO (www.obloguidomarco.blogspot.com), no CABANA DO LEITOR (http://cabanadoleitor.com.br/) e aqui na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras. Vive na cidade do Rio de Janeiro.

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