O Código Michelângelo [Carlos Castelo]

Posted on 28/04/2015

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Carlos Castelo*

Foi há muitos anos no reino da Cornualha do Sul.

No tempo em que camiseta era peça íntima.

Nosso herói chamava-se Artorius e fazia parte da nobreza.

Seu pai, havia pouco, fora aposentado compulsoriamente como bobo-da-corte do rei King.

O velho Luriens, devido à esclerose, repetia a mesma piada há anos.

– Conhecem aquela do “ménage-a-trois” entre o elefante, a formiguinha e o mouro? Ha ha ha!

Um dia, conforme o costume da época, Artorius virou cavaleiro. Num dado momento da cerimônia, o rei anunciou seu novo nome:

– A partir de agora, você se chama Gundhwyfar Seikolibur da Silva!

Transtornado com essa horrenda revelação, Gundhwyfar decide virar templário e parte para um destino de aventuras. Antes, contudo, faz uma exigência aos colegas de Cruzada.

– Por favor, me chamem de Gugu.

Rapidamente Gugu torna-se um dos mais audazes guerreiros. Cursa uma faculdade privada e torna-se sábio. Já sabe até diferenciar um alce de uma ponte elevadiça. “A ponte não come capim e não tem chifres”, compara brilhantemente.

O rei King então o coloca numa missão fundamental para o reino.

– Nosso país está estéril, as plantações não vingam, tudo é sofrimento – diz o rei King.

– O senhor ainda não viu como está o Brasil, majestade – completa o templário.

– Para que possamos voltar ao viço de outrora, garantiu-me uma pitonisa, precisamos decifrar o Código Michelângelo. E a resposta para ele está em mãos de um ermitão, na floresta de Qualirion.

Gundhwyfar indaga ao rei sobre como deve agir para decifrar o Código.

– Você deve antes passar pelos perigos da floresta mágica. Se conseguir chegar à presença do ermitão Meguin the Meguine, tem de responder à uma pergunta-chave. Se sua resposta o satisfizer, você traz o Código decodificado. Se não, você será condenado a ouvir eternamente discos de música celta.

– Só um detalhe, milorde. Será que poderíamos falar agora sobre aquele aumento salarial?

– Estava demorando…passe no Departamento Pessoal e fale com sir Galahad antes de viajar.

Com 30% de aumento, fora a inflação, Gundhwyfar entra na floresta. Passa por momentos de grande perigo até alcançar os domínios do ermitão.

O pior deles foi quando o dragão Moloc, recém-saído de um longo período de análise reichiana, decide assumir seu lado feminino e lhe passa uma cantada infame.

Foi dificílimo convencer o animal mítico de que nunca seriam aceitos numa sociedade conservadora como a Cornualha do Sul.

Mesmo assim, Moloc resolve segui-lo na viagem.

Por fim, chegam diante do velho ermitão. Muito tenso, Gundhwyfar aguarda a questão que poderá, ou não, salvar o seu reino.

– Tem fogo aí? – finalmente perguntou Meguin The Meguine (ele era um fumante inveterado que, por morar só, nunca tinha fósforos para os cigarros).

Imediatamente, Gugu ordena que Moloc dê uma baforada na guimba do ermitão.

Ele dá uma longa tragada e entrega a senha para que finalmente se decifre o Código Michelângelo.

Tudo acaba bem.

Inclusive, antes do Natal, sai o jogo com a aventura para o Playstation 4.

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenal

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