O louco do bairro [Domingos Pellegrini]

Posted on 27/04/2015

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Domingos Pellegrini*

Plantado no meio do cruzamento, o louco do bairro é contador dos carros que vão e dos carros que vem.

Os que vem, conta na mão esquerda, dedo a dedo; os que vão, na mão direita, fechando cada mão depois que estica o quinto dedo, então começa a contagem de novo, carro a carro, dedo a dedo.

Se alguém pergunta se está contando os carros direitinho, ele faz careta e gestos aflitos de que não pode falar, está contando os carros!

E também é fiscal do tempo, quando cansa de contar os carros que, mesmo tão bem contadinhos, continuam sempre a passar.

Então vai andando pelo bairro, olhando tudo e nada, cabeça sempre girando mas olhar vago.

Fiscaliza, antes de tudo, se o tempo está passando como sempre.

Ou se o tempo parece que não está passando ou demorando a passar.

Se está sobrando tempo ou faltando tempo.

Como estão os passatempos e os contratempos.

E, sempre anotando tudo na caderneta de vento, não só fiscaliza como também passa a in-ves-ti-gar o tempo!

Aonde foi parar o tempo que passou, que é que aconteceu com o tempo perdido, e que fim levaram os tempos dourados?

Se vai fazer bom tempo ou mau tempo, e que tempo faria se não tivesse feito o tempo que fez.

Porque tem tanta falta de tempo enquanto também sobra tempo?

Porque às vezes fecha o tempo, e porque o tempo sempre abre depois de um tempo?

Quem é que está dando um tempo e pra quem, e quem é que está só dando um tempo ao tempo?

E o que é que anda acontecendo de tempos em tempos? Desde quando, desde o tempo da onça?

Quem é que está ganhando e quem está tomando tempo?! Quem está fora do tempo?… E, principalmente, quem é que está matando tempo?!

Qual a diferença entre tempo que esquenta e esquentou o tempo?

Porque, com tanto tempo, tantos deixam tudo sempre para a última hora?

E o imprevisto é primo ou tio do contratempo?

E porque é que o tempo às vezes parece que estaca e outras vezes parece que estica? Tem algo a ver com o tic-tac do relógio?

Acima de tudo, como é que o tempo, que não se vê, não tem cheiro, nem corpo tem, no entanto está em tudo, já que tudo passa com o tempo, ou não?

Alguém sorri, alguém acena, o louco vai em frente na sua suada fiscalização, na incansável investigação.

Não faz mal a ninguém, diz alguém. Outro diz que o louco só faz bem, palavrão engasga quando ele passa, apartam-se brigas, rancores se refrescam, temores se divertem, o louco só faz bem.

Quem dera, diz outralguém, todos fossem assim. O louco não ouve, voltando apressado para o cruzamento, a tempo de continuar contando os carros, enquanto ainda tem tempo.

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. 

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