A caminho [Madô Martins]

Posted on 24/04/2015

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Madô Martins*

Vou saber como é realizar o mesmo sonho duas vezes. Antevejo que nada será como antes, lembrando do filósofo e das águas do rio que jamais são as mesmas. E desejo que seja tão ou mais prazeroso quanto da primeira vez, porque agora não irei só. Os dias passam depressa e confesso que me assusto quando alguém pergunta se ainda estarei por aqui na próxima semana. A contagem regressiva já começou e o tempo não diminui o ritmo, só porque custo a concretizar tantas providências: a viagem vai durar quase um mês.

A casa espelha nossa ansiedade. Nos dias quentes, lavei as roupas de frio, para enfrentar a primavera de lá. Agora, duas montanhas de calças, blusas, vestidos, casacos etc. cobrem a tampa do baú e a poltrona do escritório, aguardando o momento da triagem, quando o bom senso indicará o que levar. A faxineira já pergunta, sorrindo: “Ainda não arrumou a mala?”. Dentro de poucos dias, também esta ficará exposta, tomando ar. E talvez não seja apenas uma…

Nos jornais, nossa atenção se volta para as temperaturas, fato que influenciará decisivamente na seleção das vestes e calçados. E a lista das incumbências para quem fica cresce a cada momento, quando o sobressalto de uma ação esquecida acelera o coração. Existem as contas, as plantas, a lista de telefones de e para cada um, as chaves de casa, as tomadas a ser desplugadas, o cancelamento de entregas…

E ainda, o agendamento dos últimos compromissos aqui e dos futuros, no outro continente.

Quando a tensão aumenta demais, saio. Ando na praia, vou ao cinema, tomo café em algum lugar bonito e aconchegante. Volto refeita, e vejo que tudo parou no exato ponto onde deixei, porque qualquer medida, agora, depende apenas dos viajantes.

Imprimo todas as reservas em cópias duplas, prevenindo-nos contra qualquer imprevisto. Consulto guias e revistas, em busca do melhor roteiro. Tiro das prateleiras dicionários e cadernos dos cursos de idiomas feitos ao longo da vida, para afiar a língua, mas falta tranquilidade para estudá-los a fundo. Os papeis que vamos levar, outra montanha, já enchem uma sacola provisória que igualmente será racionalizada.

Quando deito a cabeça no travesseiro, quase sempre exausta, o que consola é saber que tanto esforço valerá a pena. O sonho nos espera e tem tudo para ser bom. Se todo preço a pagar fosse esse, para ter em troca um punhado de felicidade, faria tudo de novo, de novo, de novo… Até a volta!

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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