A vergonha coletiva [Alexandre Brandão]

Posted on 19/04/2015

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(Imagem: Átila Roque)

Alexandre Brandão*

A discussão se baseia em argumentos racionais, e os envolvidos buscam colocar os pingos nos is de forma asséptica. Não parecem envolvidos com o que discutem. É como se fosse uma tese. Quando crianças, gostamos muito de brincar com situações hipotéticas. Um pergunta ao outro: se seu pai e sua mãe estivessem num barco e naufragassem, qual você salvaria caso tivesse condições de salvar um e apenas um? A resposta sai, depois de uma resistência teatral, e os jovens partem para outra pergunta incômoda. Tudo é tese.

Estamos mais ou menos assim nessa história de redução da maioridade penal. Os que são favoráveis a ela e os que são contra pelejam com argumentos razoáveis. Uns dizem: noutros lugares do mundo, até em países mais avançados, a idade é ainda menor, 12 anos, em certos casos, menos. Outros apresentam um contra-argumento: países têm revisto suas leis para aumentar a idade, na medida em que a redução não teve o efeito desejado de conter a violência praticada por jovens. Estes insistem: no Brasil, a idade mínima foi uma decisão constituinte, portanto, causa pétrea, que não se pode modificar. Aqueles já acham que a evolução da sociedade pode fazer com que se reveja essa idade, sem ferir a constituição. Para uns o percentual de delinquentes juvenis é ínfimo, e para os outros as taxas de crescimento do percentual são alarmantes. Enfim, como já disse, são argumentos bons, que podem gerar uma acalorada discussão política. Tudo como deve ser num ambiente democrático.

O meu ponto de vista é de outra natureza. Reduzir a maioridade penal é uma derrota da sociedade brasileira. Se optarmos por isso, feriremos (ainda mais) a infância e a juventude, jogando sobre elas a responsabilidade de um fracasso coletivo. Dificultamos o futuro dos jovens pobres (quase todos pretos), negando-lhes educação, segurança (as estatísticas de morte de jovens negros são aterrorizantes) e trabalho, por exemplo. Logo, estão todos jogados por aí e, na falta de perspectiva, deixam-se seduzir pelo tráfico de drogas, que, graças a uma política equivocada de combatê-lo, tornou-se um estado informal armado.

Até o momento, desamparo é o que define a situação dos jovens. Uma situação cruel, mas não basta; eles precisam ser considerados a raiz de todos os males de nossa sociedade amedrontada. Por incompetência, não conseguimos assegurar às crianças e aos adolescentes aquilo que, num passado recente e a partir de uma visão moderna, fizemos tanta questão de registrar na Constituição. O vergonhoso passo que se quer dar vai nos custar muito. Nosso espelho não perdoará e devolverá um rosto marcado de cinismo. O meu rosto, o seu rosto, o nosso.

Dia desses chegou às minhas mãos uma frase do Betinho. Uso-a (com grifos meus) para finalizar esta crônica:

“Se não vejo na criança uma criança, é porque alguém a violentou antes, e o que vejo é o que sobrou de tudo que lhe foi tirado. Essa que vejo na rua sem pai, sem mãe, sem casa, cama e comida, essa que vive a solidão das noites sem gente por perto, é um grito, é um espanto. Diante dela, o mundo deveria parar para começar um novo encontro, porque a criança é o princípio sem fim e o seu fim é o fim de todos nós.”

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* Alexandre Brandão é autor, entre outros, de “Qual é, solidão?” (Editora Oito e Meio, 2014) e “No Osso: crônicas selecionadas” (Editora Cais Pharoux, 2012). Além de escrever crônicas no CNP Notícias, jornal de sua cidade natal, Passos (MG), tem contos e crônicas publicados em revistas eletrônicas como Pessoa, Cruviana e Germina, além de conto traduzido para o inglês no site Contemporary Brazilian Short Stories. Participa do grupo Estilingues (www.facebook.com/estilingues), que publica livros de contos para circular fora do círculo comercial. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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