Passa lá em casa [Daniel Cariello]

Posted on 16/04/2015

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Daniel Cariello*

Um sujeito toca a campainha de um apartamento. Ele está acompanhado de mulher e filho. De pijama, o morador abre a porta.

– Pois não?
– Chegamos, finalmente. Mal aí o atraso. O trânsito tava osso.
– Mas, quem é você?
– Como assim? André. A gente se conheceu na casa do Batata.
– Batata?
– Há um mês e pouco, na Tijuca. Era aniversário da mulher dele, a Cruzes.
– Creuza.
– Isso. E esses aqui são minha esposa e meu filho.
– Agora me lembro de vocês. Mas o que fazem aqui?
– Ué, aceitamos o seu convite.
– Convite?
– Pô, Juca…
– É Joca.
– Isso. Então, Juca, você convidou a gente pra jantar.
– Eu?
– Convidou. A gente passou a festa conversando sobre o golaço do Pet em cima do Vasco. Você tinha até uma teoria de que é o gol mais importante dos anos 2000. Na hora de ir embora, disse: “Bacana conhecer vocês. Passem lá em casa um dia desses, pra jantar”. Aí achamos que hoje era um dia desses e viemos.
– Tô vendo.
– Não imagina como foi difícil conseguir seu endereço e seu telefone. Você esqueceu de dar quando foi embora.
– Esqueci, né?
– É. Só a Pipoca tinha.
– Pitoca.
– Isso.
– Então foi ela…
– Mandei um zapzap avisando que a gente vinha. Não recebeu?
– Ah, era você.
– É bom que você já guarda meu número.
– É ótimo. Assim vou sempre saber quando você ligar.
– Até trouxemos um frango assado com batatas e um Grapette. A gente não gosta de incomodar.
– Olha, sabe o que é?
– Ai, não vai dizer que não come frango. Devia ter perguntado. Que mancada.
– Até como, mas é que…
– Não gosta de Grapette? Posso descer e comprar uma Fanta. Ou prefere suco?
– Não é isso, adoro Grapette. É que vocês chegaram em uma hora ruim. Sabe, não preparei nada.
– Até parece, Juca. Não tem problema.
– É Joca. Ainda por cima, minha mulher está colocando as crianças pra dormir.
– Ah, entendi…
– Entendeu?
– Bom, se é assim, vamos deixar pra outro dia. Eu aviso com mais antecedência.
– Melhor mesmo. Agora tenho seu número, vou saber que é você.
– Mas, pra não ficar muito chato, vamos aceitar o outro convite.
– Outro convite?
– Sua esposa chamou nosso filho pra dormir aqui.
– Hã?
– Foi lá na festa. Ela disse: “Meus filhos adoraram o seu. Leva ele pra dormir lá em casa um dia desses”. Aí acontece que hoje é um dia desses. Ó, tá aqui a mochila dele. Tem a escova de dentes e uma muda de roupa. Leva pra fazer xixi de noite, senão faz na cama. De manhã, come cereal com leite. Se desobedecer muito, pode colocar de castigo. Passamos amanhã, depois do almoço. Qualquer coisa, liga.
– Ei, volta aqui.
– Valeu, Juca.
– É Joca.

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Daniel Cariello já foi office-boy, guitarrista e tecladista em banda de rock, escritor, jornalista e publicitário. Queria ser reconhecido pela música, mas ganhou prêmios escrevendo para revistas e agências de propaganda. Em 2013, lançou seu primeiro livro, Chéri à Paris, com as crônicas que escreveu quando morou na capital francesa. É cronista da revista da Veja Brasília e colabora com a RUBEM às 5ª feiras. 

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