Decisões de almoço [Carlos Castelo]

Posted on 14/04/2015

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Carlos Castelo*

A comida já não é a mesma.

Fazem uns beirutes mais ou menos. Porém a proximidade das mesas colabora na audição das conversas paralelas.

Ontem se colocaram a meu lado, por assim dizer quase sentadas sobre minhas pernas, duas garotas dos seus 27 anos.

Uma era miudinha, até no vestir se mostrava contida, tons pastéis, nada sobrando ou faltando. Falava no modo minimalista. Era a escada.

A outra, o oposto.

Dama alta, fartos peitos morenos, cadeiruda, ar de diva. Camisa branca encimada por um lenço encarnadíssimo.

Trazia o ar convencido das que se acham irresistivelmente palatáveis.

Depois de ordenarem os pedidos (duas saladas, croutons, dois sucos de melancia) abriram a conversação. E esta não podia ser mais direta ao ponto. Disse a cadeiruda:

– Você sabe que eu fodo bem, não sabe?

A miúda assentiu timidamente com a cabeça, enquanto lançava uma fina fileira de azeite de oliva por cima do pão árabe. Sua falta de energia passava a impressão de que não dominava as entranhas tão bem quanto a colega.

Com olhar provocador, a polpuda prosseguiu:

– Pois então, tomei uma decisão: chega desses caras tipo malhadores. Eu só quero agora os caras tipo metedores, saca?

A colega não chegou lá.

– Então eu vou desenhar pra você entender – ralhou a grandona, irritada.

E seguiu a falação quase ao pé do meu ouvido:

– Bom, primeiro baixei meu nível de exigência. O cara não precisa mais ser um deus grego. Não mesmo, juro. Sabe o Waguininho?

– Hum.

– Então, não precisa ser como o Waguininho, aquele peitoral todo e tudo.

– Sei.

– E tem mais o seguinte: daqui pra frente acabou a viadagem. Eu tô ferrada, carro leiloado, mãe falida, conta atrasada. Eu só dou pra quem me der. Tipo que nem o Magno ontem. Ele me pagou um puta jantar num japonês, fomos pra casa dele. Ficamos. No fim, ele me descolou um Apple TV.

– Que filme?

– Meu, se liga. E o Magno lá é ator? Picas. Ele me deu foi o aparelho de Apple TV dele. E, olha, maneira demais a caixinha, faz tudo que a gente manda.

Chegaram os pratos. Atracaram-se com as saladas e os croutons. Por coincidência, também veio meu beirute e o suco de laranja. A conversa e a audição caíram para B.G.

Mas o silêncio não duraria.

Foi a miúda, dessa vez, quem abriu a segunda parte da contenda.

– Então quer dizer que agora você troca sexo por jantares e eletrodomésticos?

A grandona corou.

– Você tá me chamando de puta, é isso?

– Não. Tô só te fazendo uma pergunta.

Pausa nervosa. O oxigênio ficou, de repente, quase insuficiente para arejar o salão.

A carnuda abriu a mochila, tirou uma nota de 50 e a lançou na mesa. Aí saiu derrubando a cadeira ruidosamente.

Quando a moça pequena foi se embora, eu estava no último gole do cafezinho expresso.

O garçom me olhou e, já no terreno da intimidade, comentou:

– Finas, hein?

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenal

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