Objetos [Elyandria Silva]

Posted on 09/04/2015

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Elyandria Silva*

Tinha uma escadaria enorme, em pé, era quase como escalar um monte. Todos em silêncio, como bonecos tristes. A professora era uma mulher extremamente miúda e pequena, tão pequena que quase não me lembro de outros detalhes, pois estes também se apequenaram em minha lembrança. Cada um sentava em sua cadeira, a máquina de escrever à frente. Algumas cadeiras permaneciam vazias, as máquinas, certamente com pó por cima das letras, aguardavam, como livros numa estante empoeirada. O meu lugar ficava na fila do canto direito da sala, encostado na parede. O desconforto era costumeiro. Recebíamos a tarefa, a primeira de várias daquela uma hora em que ali ficávamos.

Bater com os cinco dedos, eis a regra principal. Nem todos conseguiam. Os que batiam apenas com os dois polegares sofriam com a rotulação que os remetia ao atraso, à dificuldade da ofensa calada a quem ensina. Esses não datilografavam, e sim “catavam milho” nas teclas. Corriam o risco de não receberem o certificado ao final do curso. Não era como nos dias de hoje, que todo mundo passa, sabendo ou não sabendo. No passado o saber que vinha do aprender era luxo, só quem realmente fazia por merecer ganhava júbilos.

Quanto a eu parecia que tinha sido uma grande datilógrafa numa outra vida. Desenvolvi toques precisos, desenhados como movimentos de balé das mãos, os dedos finos, magros, rápidos, usava todos os dedos, às vezes sem olhar. Poucos erros, quase nenhum. A folha talhada com as frases do exercício descia vertiginosamente sob o rolo da máquina se dependurando para o outro lado. O cronômetro quase não me vencia. No início o tempo era livre, podia escrever devagar. Depois mais rápido. Mais, mais, mais, mais… o som da metralhadora fictícia a retumbar no papel, até que o tempo para copiar o texto dado pela professora era cronometrado.

O nome da escola era Ruth, o sobrenome pouca diferença faz, poderia ser qualquer um. O que importava era o som de todas aquelas teclas juntas, numa sinfonia desajeitada aos ouvidos de quem nada entendia de máquinas de escrever. A minha era uma máquina preta, com a estrutura traseira mais alta. A memória apagou algumas teclas, apagou sobre o que copiávamos, mas não apagou o porque. O curso durava seis meses com direito a certificado no final. O domínio da arte de datilografar equivalia a, nos dias de hoje, dominar os recursos de uso do computador. A escrita e a impressão ao mesmo tempo, uma mágica. Os erros, que se tentava apagar com corretivo, deixando a mancha branca evidente na folha, denunciavam facilmente os lapsos do escrevente.

Os objetos pelos quais nos apaixonamos na vida são a extensão da alma, da identidade, principalmente das identidades que se perderam ao longo de uma existência. Entre tantas coisas da modernidade fajuta, tantos tempos, tantas luas, tantas palavras, precisa-se deles, os objetos, para viver e para tornar vívido o que sustenta a sobrevivência. Esses mesmos objetos transformam-se no melhor transporte para atravessar dias difíceis. Eles se encaixam perfeitamente no silêncio de dias difíceis, onde o vento ou o calor do sol são as únicas coisas limpas. E são nesses dias que uma máquina de escrever se transforma no verbo principal.

Mundos impossíveis começam com toques do a, f, g, m, k, c, r, e, o, q, v, b, assim, como faço agora. Pausas se perpetuam através dos sinais. Batemos nas teclas, digitamos, apagamos. Um vai e volta de vogais e consoantes que pintam páginas, como tintas em campos nevados.

Ela fica parada sempre no mesmo canto e em dias turbulentos é como se não existisse. Em dias calmos ressurge, mas as teclas são duras e o barulho chega a cansar os ouvidos. Tem certas vezes que algum dedo se prende lá no escuro, na quietude daquele alfabeto pintado de branco.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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