Outono [Ana Laura Nahas]

Posted on 08/04/2015

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Ana Laura Nahas*

Apesar dos protestos alheios, sempre adorei os dias de calor, abrir a janela felicíssima com o quente que vinha de fora, aproveitar os minutos que sobravam do almoço plantada debaixo do sol como uma planta que precisasse da fotossíntese para seguir, olhar atrás do vidro a profusão de vermelhos e amarelos e cinzas e verdes do entardecer, pensar no quanto faz bem viver embalada pela ideia de que, no verão, a vida pesa menos. Mas o outono tem seu lugar – é certo que tem.

Para maias, astecas, chineses, hindus e japoneses, outono é tempo das mudanças. Segundo a canção, é a chuva chovendo, a conversa ribeira das águas de março; é o fim da canseira. De acordo com o olhar de dois anos atrás, e ainda hoje, é uma temporada de transformações, de colher e ver as folhas que caem, amarelas.

Conforme a Física, é a época em que a luz solar incide perpendicularmente sobre o Equador, as temperaturas estão mais amenas, os dois hemisférios ficam igualmente iluminados, dias e noites têm duração semelhante e o ar, menos umidade. Pelos cálculos do Instituto Nacional de Tempo, Clima e Transformações, a previsão é outra: mudanças bruscas no céu e formação de nevoeiros que terão se dissipado até o fim da temporada.

Outono é tempo de projeto novo, fôlego novo, caminho novo, e cuidar dos afetos de sempre e plantar as sementes à espera de semeadura, cada uma com exigências muitíssimo particulares, terras com alto teor de matéria orgânica e água uma vez por dia para as mudas de Habanero Red, calcário no canteiro da Chapéu de Bispo, as violetas que parecem sufocadas quando fechamos a cortina, o verde plástico das samambaias, dependuradas e firmes como poucas coisas no mundo conseguem ser ao mesmo tempo, casca de ovo e borra de café para adubar as acerolas e um pouco de conversa, que no final das contas não deve fazer mal.

É tempo de leitura nova e descobrir, pelas páginas que se seguem, as dores do homem que, quando menino, usava calças curtas e pensava que a vida era uma fita em série e, crescido já, de calças compridas, continuou pensando do mesmo modo, de maneira que, quando uma coisa triste tinha de acontecer, acontecia mesmo.

– É o diabo, ele dizia.

Enquanto o verão, desde muito, remete a leveza, simplicidade e movimento, o outono lembra faxina, arrumação, reencontrar o foco, planejar outro caminho, voltar a sorrir também com o espírito, e não apenas com os dentes. Se um abriga chegadas e reencontros [e também algumas idas, e às vezes nem dá tempo de dizer adeus], o outono guarda a decisão, difícil, mas certeira, de deixar, transformar, virar a página.

Se franceses, paquistaneses, chineses e holandeses eram capazes de viver com gramáticas e relações em que nunca houve a dor da ausência, por que não a gente? Saudade, afinal, faz parte da lista das palavras [é a sétima] mais difíceis de traduzir do mundo – só perde para ilunga [alguém disposto a perdoar quaisquer maus-tratos pela primeira vez, a tolerar o mesmo pela segunda vez, mas nunca pela terceira vez”, no idioma africano Tshiluba], shlimazi [“alguém cronicamente azarado”, em ídiche] e outras quatro que não lembro mais.

Outono é tempo de alimentar a paciência, investir nos afetos mais serenos, manter a casa arrumada, a mesa, as estantes, os armários e as lembranças, aprender receitas novas, o ponto certo, alecrim e molho de café.

[Delícia].

Enquanto o verão se embalava com um cardápio à base de legumes, chocolate e Coca Cola e a rima segundo a qual não precisa sofrer para saber o que é melhor para você, no outono os sons têm um tom a menos e as receitas, um condimento a mais. Se um abria espaço para música alta e caipirinha, o outro costuma ser de novos ares, desfazer do apego, do medo e do aconchego, jogar fora os papéis que não servem, e também certas histórias, lavar a alma com a chuva que cai em profusão, exatamente como a canção diz que se faz: as águas de março fechando o verão e a promessa de vida no teu [e assim espero também no meu] coração.

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* Ana Laura Nahas é jornalista formada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), com 15 anos de experiência em jornais, revistas, rádio e internet. Escreve crônicas desde 2002. Seu primeiro livro, “Todo Sentimento”, já esgotado, foi lançado em 2008. Recentemente lançou “Quase um segundo”. Também mantém um blog, http://www.analauranahas.wordpress.com. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quartas-feiras. 

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