De madrugada [Domingos Pellegrini]

Posted on 06/04/2015

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A Gazeta de Capivari, terra dos nonnos, toda semana trazia um soneto, aguardado e depois comentado nas casas e bares, isso nos séculos passado e retrasado. Talvez venha daí meu gen sonetista, com sonetos me acorrendo geralmente de madrugada, levanto para anotar. Dizem que sonetos são demodé, não tem mais quem por eles se interesse, mas não posso deixar de anotar o que parece vir independente de mim, como estes dois na mesma hora duma madrugada na última semana:

Surrealices

A chuva acaba de cair da cama
o iceberg se enrola no seu ninho
cantam em Mandarim os passarinhos
da tevê as quadrilhas se derramam

No festival de rock violões de pinho
árabes e judeus em silêncio se amam
mas a reforma ortográfica reclama
para o sindicato dos armarinhos

O governo dá bolsas de trabalho
no inferno faz um friozinho gostoso
igrejas tem apenas pequenos templos

Vão os astronautas jogando baralho
as ambições entraram em repouso
e os políticos só dão bons exemplos

Pequenices

Lanço comida para os passarinhos
um grão de alpiste cai no assoalho
tão deslisantemente pequeninho
me dando o desafio de catá-lo

Procuro que procuro o danadinho
mas acho apenas botão de agasalho
estendido em varal a prepará-lo
para o inverno que se avizinha

Pego o botão. É liso como só
são os botões de osso e os grãos de alpiste.
Ainda tem pedacinho de linha.

Vou devolver ao bolso do paletó
mas ele cai com seus olhinhos tristes
ao lado duma linda joaninha

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. 

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