A voz da consciência* [Rubem Penz]

Posted on 03/04/2015

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Rubem Penz*

Há quem diga que todo texto literário traz dentro de si um subtexto[1]. É de se supor que a crônica, por extensão, também oculte uma segunda história nas suas entrelinhas[2]. Acidental ou propositalmente, o cronista oferece ao leitor um novo sentido, desde que ele tenha a oportunidade de uma fruição mais atenta e pormenorizada[3]. Não que isso seja uma regra, é claro[4].

Um dos maiores mistérios da criação é seu ânimo (do latim animus, razão, espírito, vida)[5]. Isto é, o que fez a obra nascer, seu sentido ou cerne. Todo cronista parte de um tema que lhe oferece tal ânimo[6]. Por esse raciocínio, o subtexto é algo urdido pelo escritor que, com talento, constrói duas narrativas: a visível e a oculta, uma em complemento da outra[7]. Enfim, terá atingido seu desígnio se, ao final, o leitor pensar “mas do que estamos falando, mesmo?”[8].

Porém, muitas vezes o escritor se vê surpreendido por um analista mais aprofundado e capaz de desvelar mensagens invisíveis ao próprio autor[9]. É esta, enfim, a inquietação que fez nascer a crônica: o ânimo, ele próprio, pode permanecer oculto do autor[10]? Nasceria um subtexto à revelia da razão[11]? Este é o momento de pedir ajuda aos universitários, sejam eles das Letras, sejam da Psicologia – talvez os mais cotados[12].

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[1] Há quem diga, Rubem? Há quem diga!? Que subterfúgio mais covarde este de atirar uma opinião para cima, esperando que caia no colo de um incauto. Ou diz quem diz, ou muda este começo!

[2] Está piorando, caro autor… Da maneira como colocas, pode-se depreender que não tens firmeza de propósito quanto ao fato de a crônica ser um “texto literário”. Um desserviço para a causa.

[3] Argumentinho safado, este: mesmo sabendo que a crônica conta com um leitor mais fugidio, colocas como pressuposto de compreensão plena um raro vagar, absolvendo o escritor de prováveis culpas.

[4] Ah, estás me escutando! Por isso criou essa “porta de incêndio”. Agora, quem sabe o texto melhore no segundo parágrafo.

[5] Latim? Que lindo! Mas a pergunta que fica é: sabias mesmo, ou foi consultar no Google? Porque agora anda fácil ostentar um verniz de cultura. Ou estou mentindo?

[6] Como assim “todo cronista”? Até parece que o Rubem Braga deixou contigo uma procuração para falar por ele. Ou o Antônio Maria, o Paulo Mendes Campos, o Verissimo. Fala por ti, meu rapaz!

[7] Já pensou em se candidatar a vereador? Porque tu estás adotando o mesmo papinho deles: lança uma premissa e, partindo do pressuposto que ela colou, constrói uma “verdade”. Estou de olho!

[8] Aproveito a oportunidade para perguntar: do que é que estás falando, mesmo? Já foram dois parágrafos e eu ainda estou sem saber onde essa historinha de subtexto vai levar.

[9] Estás falando de mim? Confessa, vai! Notaste um comentarista aqui no pé da página, eu, um leitor acima da média, ainda que abaixo do texto. Segue assim, segue assim. A crônica pode ter salvação.

[10] Eu sabia! Matei a charada! Estás falando de mim, o subtexto. Sou eu teu ânimo, tua razão, tua vida. Sou a parte mais importante da crônica e, nem por isso, costumo aparecer para ti. Muito menos impresso. Hoje, por algum motivo, estou aqui. O leitor me vê. Sabe de mim. Oi, tudo bem? Comigo, tudo ótimo…

[11] Como assim? Estavas indo tão bem… Agora vens com essa de intromissão, de eu existir fora dos teus propósitos. Para com isso, Rubem. Somos um só, texto e subtexto. Somos parte indissociável de ti. Até mesmo quando me crias sem querer, nasci de um propósito. Não me deixes com esse complexo de filho não planejado, não desejado. Isso magoa, viu?

[12] Doutora, é o seguinte: este texto está meio esquizofrênico. Como podes ver, eu e ele (o camarada ali acima) somos um só. Ele escreve vozes, sabe? Enquanto desenvolve o raciocínio oficial, desenvolve outro paralelo. E, o pior: não admite. Fica me negando, dizendo que sou “oculto”, que vou nascer apenas na compreensão do leitor. Logo eu, tão real e palpável. A senhora está me lendo doutora? Alou? Tem alguém aí? Rubem?

*Obra livremente inspirada no conto Subtexto, de Sulivan Bressan

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*Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro de estreia, O Y da questão e outras crônicas, foi finalista dos prêmios Açorianos de Literatura e Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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