Olha a promoção! [Marco Antonio Martire]

Posted on 01/04/2015

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(Imagem: Marcelo Oliveira)

Marco Antonio Martire*

Vende-se uma promoção de pizza mais refrigerante por tanto. Quando bate aquela fome urgente o povo recorre logo à tradicional pizza. Mas a pizza e o refrigerante de dois litros vendidos separadamente custam o mesmo valor desta promoção! Promoção? Promoção é só um nome que se põe na vitrine para chamar a atenção do freguês.

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O motorista faz uma manobra para a direita e encosta o ônibus na calçada da praça. Deixou a traseira do ônibus atravessada na pista e o guarda municipal a orientar o tráfego apita com autoridade. Mas o motorista não está nem aí, se concentra na tarefa mais importante: tem que dar o troco. Quanto mais rápido der o troco, mais rápido sai dali, tenho certeza de que o guarda entende. Já está saindo quando abre as portas para um último passageiro, pisa no acelerador enquanto conta as moedinhas.

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Aquela dona de casa constata consternada que recebeu uma nota de vinte reais em que falta um pedaço. Não entende como não percebeu, é sempre cuidadosa, deve ter sido na feira. Não tem coragem de ir lá cobrar do feirante, é uma senhora respeitável, prefere a outra solução: passa a nota adiante na padaria, entrega a nota dobradinha e ninguém descobre. Parece até que nasceu para enganar.

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O quiosque não fatura como devia, algumas obrigações ficaram pelo caminho. A dedetização, por exemplo, não fez, ele quer fazer, mas a grana está muito curta, a vida é dura e ele está devendo. Mata essa barata, mata logo, porra! Surge então o fiscal e o dinheiro aparece, tem que arrumar o dinheiro, dinheiro surge do nada, não tem jeito, como é que se enfrenta esses caras? Podíamos juntar todo mundo que paga e acabar com essa praga. Esquece, é uma máfia. Mais fácil encarar as baratas.

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A pensão do moleque que a ex recebe é boa, mas se ela souber da bolada que o ex ganhou de comissão a danada vem para cima. A grana é para uma viagem a Búzios, ele vai com a namorada gostosa, os dois já estão na vontade desde o início do ano. Ele quer que o filho vá junto, o moleque vai adorar, muita praia e sol, uma prancha de surfe novinha! Você estuda depois, tem tempo para tudo, meu pai é muito gente boa.

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Acostumou-se o menino desde pequeno com o remedinho. O remedinho faz bem e não se preocupe, eu vou estar sempre aqui, cuidando de você. Não se esqueça quando viajar, não se esqueça quando você namorar, lembra de mim até quando deitar na cama com sua princesa. Sou eu quem te dá o remedinho, que embala o teu sono, que te faz sonhar tranquilo. O remedinho de repente sumiu, o menino cresceu e ela é que ficou dependente. Sua aposentadoria não vale mais nada, ela sente que foi roubada.

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O sujeito estudou anos para prestar concurso. No fim das contas, depois de muito sacrifício, passou em primeiro lugar no banco. Foi com a família à posse, que alegria! Muitos sonhos, talvez cursasse uma pós ou um mestrado, aprenderia coisas novas, faria amizades. Meteram o sortudo naquele guichê afastadaço, por lá o concursado foi ficando, sem outras chances, cada vez menos agitado. E o salário tornou-se importante, sempre mais importante, era a vida aquela grana certa no fim do mês. Não vou dizer que se casou, mas aqueles a quem o sortudo atendia no guichê sabiam por instinto: não mereciam tanta mágoa daquele coração.

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Marco Antonio Martire nasceu no Brasil em 1973 e formou-se em Comunicação Social pela UFRJ. Seu livro de estréia, Capoeira angola mandou chamar, ganhou o Prêmio Lucilo Varejão para obra inédita concedido pelo Conselho Municipal de Cultura da Cidade do Recife, tendo sido publicado em 2000. Marco edita suas obras de forma independente desde 2012 e publica suas crônicas no BLOGUI DO MARCO (www.obloguidomarco.blogspot.com), no CABANA DO LEITOR (http://cabanadoleitor.com.br/) e aqui na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras. Vive na cidade do Rio de Janeiro.

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