Just don’t do it [Carlos Castelo]

Posted on 31/03/2015

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Carlos Castelo*

Existe um preconceito muito forte em alguns setores da sociedade relacionado às pessoas viciadas em academia.

Nem todo malhador é limitado intelectualmente, como se apregoa em certos meios pseudocultos.

Uma parte considerável não está ali apenas por vaidade. Nem por se achar o último Gatorade da geladeira.

Alguns até gostariam de experimentar uma vez na vida a leitura de um livro – mesmo que fosse “O Código da Vinci” -, assistir a um filme iraniano, entrar numa exposição de arte contemporânea senegalesa.

Mas andam tão viciados em endorfina que só conseguem ler rótulo de MegaMass, assistir a vídeos da maratona de Nova Iorque na ESPN e ir a exposições de fotos do último “Open de Bóia-Cross de Potirendaba”.

Justiça seja feita, essas pobres vítimas do “no pain, no gain” não passam de zumbis manipulados pelo marketing esportivo internacional.

De tanto ver tais seres pelas vidraças das academias paulistanas, correndo e suando nos horários menos britânicos, decidi levantar uma bandeira.

Alguém precisa libertá-los das nefastas engrenagens das bicicletas ergométricas, dos “steppers”, dos Abtoner da vida.

Minha contribuição é singela e vem na forma de aconselhamento. Se você malha sete dias por semana e tem vontade de abandonar essa vida, inicie imediatamente um programa muito simples.

Dia 1: Vá à academia, dê uma corridinha leve de meia hora na esteira e tente ler uma revista Caras durante o treino – mas nada de muito pesado, comece pela parte de receitas.

Dia 2: Suba numa bicicleta ergométrica e fique lendo a Veja – agora no noticiário Geral – sem pedalar.

Dia 3: Para compensar o esforço do segundo dia, corra o percurso equivalente à meia-maratona no Parque. À noite, tente ler trechos de “O Pequeno Príncipe”.

Dia 4: No caminho da academia, pare numa padaria e peça um torresmo. Engula com a ajuda de um copo de água. Arremate com a leitura de um poema da última fase do Vinícius de Moraes.

Dia 5: Falte no treino e comece a estabelecer metas mais ambiciosas. Dirija-se até a porta de um cinema de arte, com um Le Monde Diplomatique debaixo do braço, e tente entrar. Se conseguir suportar o filme até o final, nem precisa ler o jornal.

Dia 6: Pegue um DVD de Sergei Eisenstein e assista andando de esteira em casa.

Dia 7: Parabéns, você chegou lá, campeão! Agora relaxe e fume um cigarro.

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenal

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