500 anos de Santa Teresa D’Ávila [Mariana Ianelli]

Posted on 28/03/2015

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Mariana Ianelli*

Grande Teresa. Uma mística dentro da Igreja: aquele tipo de estorvo de mulher que pensa amando e trabalha feito um homem. Cristã nova, monja engajada na reforma do Carmelo na época da Contra-Reforma, poeta, autodidata, obviamente na mira da Inquisição por tudo isso. Teresa trabalhava sendo observada. Se tentavam fechar seu caminho, ela o reabria lá na frente, não parava. A primeira mulher santificada por suas provas de virtude e não provas de milagre. As mesmas virtudes que acabaram engenhosamente invertidas em vaidades na acusação dos seus inquisidores. Entre essas virtudes, o vade retro demônio da fofoca. Olhe cada uma para si mesma, Teresa dizia para suas irmãs carmelitas, se ocupe cada uma da própria cruz e das próprias falhas.

Quinze anos depois do Livro da vida, considerado herético, apreendido pela Inquisição, Teresa que não parava, Teresa que reabria lá na frente seu caminho, escreveu suas Moradas. Foram seis meses de trabalho, em 1577, que lhe deram a fama de ter revolucionado para sempre a espiritualidade cristã. Teresa copernicana. Olhe cada uma para si mesma, cada uma se ocupe de achar o próprio centro da alma, começando do começo, pelas primeiras moradas. É como o roteiro de um mergulho, um mapa de acesso a um castelo de muitas águas.

Da casta da oração, orava gozando, Teresa d’Ávila. Água viva que jorra, descendo do Líbano, vertendo por sete moradas, Teresa da casta dos amantes do Cântico dos cânticos, Teresa apaixonada. O roteiro das Moradas dá o passo a passo de um peão no tabuleiro, até esse peão ser promovido a dama. Mas uma alma não avança casas forçando a barra, não avança por ser inteligente ou simplesmente porque tem vontade. Teresa se explica comparando, ela que gosta de comparar. Compara a alma com um cristal, uma abelha, um bicho de seda, uma pomba, uma fênix, um barquinho indo por onde mandam as águas, uma cera que amolece no fogo, para que nela se imprima um selo, uma palha atraída pelo âmbar, um verme que vai se alimentando das folhas da amoreira, um verme que vai tecendo seu casulo, até a hora de eclodir numa mariposa branca.

Humildade, irmãs, humildade, que o amor só desperta quando quer, só quando quer oferta a coisa amada. Cuidado, irmãs, que as mulheres são fracas, impressionáveis, suscetíveis, podem ficar embevecidas por muito pouco, podem se perder nessas moradas, tomar por coisa de anjo o que é coisa do diabo. Santa Teresa é deliciosamente irônica para uma escritora na Espanha do século XVI. Irônica com a mesma delícia, hoje, falando a inquisidores de outro tipo, quando afirma que o que está bem explicado no que escreve não é ela quem o diz, mas o que não passa de engano no que diz, isso sim é culpa sua. Quem é tão moderno hoje a ponto de uma ironia assim lavada de arrogância? Livre, pura da pureza que brinca com a malícia alheia, com a vanglória alheia. Pode ser que ela esteja errada em tudo o que escreve e nem por isso mente.

Santa Teresa se usa como exemplo em seus escritos, na terceira pessoa. O Espírito Santo a inspira: noção de um modo geral derrisória fora da Igreja, mas, ainda assim, uma noção que prevalece nos retratos de Teresa, que aparece quase sempre acompanhada de uma pomba. Bernini, no século XVII, fez diferente. Colocou uma flecha de fogo na mão de um anjo e sobre uma nuvem de mármore a santa em êxtase. A santa debaixo de uma chuva de luz, transverberada. No século XX, Tamara de Lempicka levou esse êxtase para a pintura. Teresa já não aparece escrevendo nem orando, sua alma agora está dentro de uma adega, bêbada, louca da boa loucura, celebrando núpcias, vivendo a palavra júbilo.

No convento das carmelitas de Villanueva de la Jara, na Espanha, os 500 anos do nascimento de Santa Teresa estão sendo comemorados com a abertura de um museu sobre o livro das Moradas. Uma instalação da artista Ana Queral recria entre as paredes do museu o castelo interior de Teresa, de morada em morada.  Existe qualquer coisa de singelo na projeção desses espaços interiores, conformados às salas de um museu, em comparação com as fontes, os jardins e os cristais sem conta do palácio de uma alma. E não tem nada de errado com essa singeleza. As moradas, ao todo, são sete, e elas falam de toda sorte de obras, gostos e vaidades.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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