Onde moram as crônicas [Elyandria Silva]

Posted on 26/03/2015

0



Elyandria Silva*

Sempre achei que algumas crônicas morassem numa casa de imagens, belas e fugidias, com teto de algodão amarelado, e cantoneiras de palha dourada. Imagens que, ao menor sinal de mudança na geometria do tempo, se dissolvessem, como blocos de pensamentos que se desmoronam quando outros chegam sem avisar. Uma casa com endereço sobre as pedras, que ganha a velocidade da luz quando alguém chega e leva uma das crônicas para passear, matando de inveja as que ficam sonolentas pelos cantos.

Peguei uma imagem e a carreguei pelo braço. Há tanto tempo a vejo que já se tornou uma fotografia envelhecida, não menos importante que a cativante e inesquecível fotografia de Henri Cartier-Bresson, de um homem pulando sobre o chão alagado, com sua sombra refletindo na água, uma escada velha logo atrás dele, no chão; um extenso  e alto portão ao fundo, e onde este parece terminar um cartaz que cobre um muro, em letras garrafais, escrito RAILOWSKI. Essa fotografia, em preto e branco, foi tirada por Henri detrás da Estação de Saint-Lazare, em Paris, em 1932.

A imagem que passeia comigo é a da avó sentada numa cadeira, que tem pretensões de eternidade. Ela abana-se com um leque improvisado, funga vez ou outra, avista a rua que já é sua por direito de profecias. Choraminga por segundos. Depois começa a contar, a recontar, a lembrar. Depois começa a se bater nas paredes da saudade, a querer que o tempo perdido volte em forma de mágica. Querer essas coisas dói demais, e quando acontece, como sempre acontecia à avó, tinha de tomar remédio para a alma, remédio forte, e até remédio para o corpo, em forma de chá ou comprimido. A avó com o leque lembrava-se do amor que morreu quando ela menos esperava, embora tivesse partido com setenta e cinco anos. Contava como se conheceram, como se comunicavam, com cartas que demoravam semanas para chegar, ria das declarações, dos presentes, do começo do namoro. Sentia prazer com tudo o que viveram, a alegria dos filhos. Sentia indignação com os tratados cegos que a vida impõe, com o tratado das partidas inesperadas e jamais aceitas. A inconformidade com a morte do amor de uma vida toda, o desmoronamento da família, mesmo com todos tentando segurar as pontas pesadas. Não existe solução para equações dessa natureza. Os matemáticos mal conseguem prever o caminho para tão difícil cálculo.

Essa imagem da avó, com vestido de fazenda florida, com fileira longa de botões ao meio, os pés cruzados na cadeira, com a menina ouvinte e muda ao chão, querendo resolver a dor da avó de qualquer jeito saiu da casa das crônicas para sempre, não tem jeito de voltar a viver com as outras. Agora é texto pronto, é coleção de palavras atreladas a uma manhã de terça-feira, mais de trinta anos depois.

Feliz de quem consegue construir sua casa de imagens particular, a mantém limpa, arejada, com todos os impostos pagos, só para si. Não convém receber visitas, a energia delas pode poluir o local, mas sempre tem alguém que lá levamos, alguém de nossa confiança, que saberá entendê-las, alguém com quem podemos deixar a chave da casa, para cuidar, caso tenhamos de viajar, por um tempo ou para sempre.

_________

Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

Anúncios
Posted in: Uncategorized