O que eu sou [Cyro de Mattos]

Posted on 24/03/2015

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Cyro de Mattos*

Nasci em Itabuna, sul da Bahia. Naquela cidade com cerca de trinta mil habitantes, em uma região outrora rica com suas plantações de cacau, tive uma infância diferente de hoje na qual os jogos eletrônicos transmitem o prazer decorrente de automação da máquina no tempo computadorizado. No meu tempo de menino, os momentos de prazer de cada aventura eram vividos por mim mesmo com meus queridos amigos. Éramos criadores, produtores e atores de nossas diversões no palco da vida. Roubar fruta madura no quintal do vizinho, jogar futebol em campinhos improvisados nos terrenos baldios, brincar de mocinho e bandido com balas de mamona na atiradeira, disputar quem tinha mais fôlego quando mergulhávamos no rio de águas claras rendiam sustos esplêndidos na aventura de cada dia. Foi naquela cidade com estações temperadas de sol e chuva que tive a primeira escola, a primeira comunhão, a primeira namorada, o primeiro Carnaval, a primeira gravata, o primeiro banho de rio, o primeiro São João. Joguei a primeira partida de futebol com os meninos da rua onde morava.

Fiz o curso primário em minha cidade natal. Minhas primeiras leituras foram em revistas de quadrinhos, os meninos de meu tempo chamavam de gibi e guri. Nem sabia que com meus heróis inesquecíveis, Mandrake, Homem-Morcego, Tarzan, Capitão Marvel, Super-Homem, Tocha Humana, O Fantasma, Flash Gordon, Príncipe Submarino, Durango Kid e outros – estava entrando na morada dos sonhos para nunca mais sair. Os primeiros livros que li foram da coleção O tesouro da juventude, de Júlio Verne; a seguir os de Edgard Allan Poe, Charles Dickens e Monteiro Lobato.

O menino do interior foi para Salvador, como o pai queria, para se tornar advogado. Na cidade de todos os santos e orixás, concluí o curso ginasial no Colégio Nossa Senhora da Vitória, dos Irmãos Maristas. Fiz o curso clássico no Colégio Estadual da Bahia (Central). Tive nessa fase as descobertas de Machado de Assis, Camões, Euclides da Cunha, Eça de Queiroz, Lima Barreto, Kafka, Hemingway, Sartre e de outros autores importantes.

O meu primeiro conto, “A Corrida”, eu publiquei quando cursava a Faculdade de Direito, em 1959. Saiu no suplemento literário do Jornal da Bahia, dirigido por meu amigo, colega de faculdade e companheiro de geração, João Ubaldo Ribeiro, que depois viria ser um romancista de fôlego nas letras brasileiras. De leitor passava pela primeira vez para autor de uma história. A sensação dessa passagem foi de pura alegria. Não parei mais de andar nesse caminho de dar palavra ao sonho.

Anos mais tarde, publiquei volumes de contos e novelas, até que migrei da prosa para a poesia. De repente, de uns anos para cá surgiu de dentro de mim aquele menino franzino e esperto, pedindo que escrevesse também para crianças. Tenho grande prazer quando escrevo para o leitor infantil e juvenil. Quero que esse menino escritor para outros meninos leitores nunca mais se afaste de meu pequeno coração, que um dia foi trancado na alma com pedaços de infância pelo mundo dos homens. E assim as coisas passaram a ter o gosto de uma fruta que acaba. Fiz até um poema em que falo disso, e que está em um dos meus livros inéditos, “A Poesia É Um Mar – Venha Comigo Navegar”.

Mostro agora esse poema para vocês.

A Estrelinha

Achei uma estrelinha
Que caiu no mar
E veio dar na praia.

Perguntei pra ela:
– O que vale mais,
Brilhar no céu
Ou no vaivém das ondas?

Ela então respondeu:
– O mundo me encanta
Quando brilho lá dentro
E nunca se apaga
Seu coração de criança.

__________

*Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista e autor de livros para crianças. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos, e o APCA com “O Menino Camelô”. Finalista do Jabuti três vezes. Tem livros publicados em Portugal, Itália, França e  Alemanha. Distinguido com a Ordem do Mérito da Bahia. Pertence ao Pen Clube do Brasil . Na RUBEM, Cyro de Mattos escreve quinzenalmente às terças-feiras. 

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