Sonhando com a Botocúndia [Carlos Castelo]

Posted on 17/03/2015

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Carlos Castelo*

Vejo a placa: “Botocúndia”. Passo em seguida por um cientista que diz: “se Deus quiser”, assim com a boca cheia.

Vou indo. Caminhando, insone.

Não muito longe dali está o médico que disparou vários tiros no paciente. Tudo porque o advogado dele havia aceitado a propina do padre que traficava drogas; o mesmo pároco que era protegido do ginecologista preso por pedofilia.

Ainda assim, não sei bem a razão – peço uma benção ao religioso:

– Estou de licença-prêmio, meu filho – ele responde enquanto passeia ladeado por dois enormes seguranças no parque da cidade.

Noto que o entorno mudou muito. Mas aqui não era um parque? Árvores, plantas, pistas de cooper? Por que virou este estacionamento gigantesco?

Despeço-me do vigário e sigo desviando dos automóveis e manobristas.

Na padaria da esquina, peço um café. O atendente me diz que não sabe o que é café. Acho estranho. Repito o pedido, falando mais alto. O atendente:

– Aceita chá de boldo?

Por que ninguém mais sabe o que é café?

Ele me mostra um cardápio ensebado. Há pelo menos 15 opções de chá de boldo: com chantilly, irish boldo, capuccino de boldo, boldo carioca, boldo expresso…

Olho em volto. A padaria toda bebe placidamente chá de boldo.

Na tevê do estabelecimento coincidentemente passa um comercial de uma marca da amarga bebida.

Casal de jovens, à beira de uma lareira, finamente agasalhados, bebem em elegantes xícaras o produto. O locutor diz, tom empostado: “Boldo Premium. Extraforte, para momentos extraordinários”.

Na calçada um bando de policiais foge de três marginais armados de metralhadoras.

Entra no recinto um som abafado. Vem de um trio elétrico repleto de dançarinos e dançarinas com roupas africanas. Engraçado, eles dançam ao som de “I’m a believer”, dos Monkees.

É um lugar estranho mesmo.

De novo os policiais passam correndo à minha frente. Agora fogem de um jovem que os ameaça com uma pequena granada de mão.

Na calçada um juiz togado segura um cartaz. Leio: “vendo sentenças, preços módicos”.

Dou sinal a um táxi.

Depois de alguns instantes, um deles para. Entro. O taxista:

– O que você quer comigo?

Digo que quero ir para o centro. Ele:

– Como assim, quer ir para o centro?

Mas o que acontece nesse lugar? Os padres são corruptos, os juízes vendem sentenças, os médicos matam os pacientes, as áreas verdes viraram estacionamentos e os táxis… bem, os táxis não te levam a parte alguma; o meu vai indo embora pela avenida.

Em pé no meio da rua, asfalto todo esburacado, em pleno inverno um sol de Gana abrasa tudo e todos.

As estações invertidas, os pólos derretendo, as matas frias. Os táxis vão passando sem olhar para quem está na calçada. Then I saw her face, now I’m a believer, not a trace of doubt in my mind, I’m in love, Im a believer! I couldnt leave her if I tried.

Momentos depois acordo no Brasil.

Era um tudo um pesadelo. Que alívio!

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras. 

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