Conselhos [Madô Martins]

Posted on 13/03/2015

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Madô Martins*

Tive de casar em abril. Preferia março, mas todos – parentes, amigos, recepcionistas da igreja – me aconselharam o mês seguinte, para escapar da Quaresma, período em que as imagens dos santos permaneciam cobertas por panos roxos e os templos católicos perdiam a beleza, entristecidos pelo luto. Lembro sempre disso, quando as quaresmeiras começam a florir, enfeitando as ruas da cidade com suas folhas muito verdes e flores roxas que neutralizam a aridez do concreto.

Imagino que a serra já deva estar também toda ornamentada por quaresmeiras em flor. Minha avó contava que, décadas atrás, a espécie era desconhecida aqui na região, e quando um pintor amigo da família incluiu um exemplar em sua tela, os apreciadores de sua arte consideraram um tremendo mau gosto aquela árvore verde e roxa, aconselhando-o a escolher cores mais harmoniosas, sem tanto contraste entre si.

Hoje, quaresmeiras são bem-vindas onde quer que floresçam. Contaram-me que passaram a fazer parte da paisagem da Serra do Mar quando foi implantado o sistema Anchieta-Imigrantes, que liga o planalto ao litoral paulista. Para tornar a Rodovia dos Imigrantes uma realidade, foram necessários cortes profundos nas montanhas, o que poderia provocar grandes deslizamentos de terra, com consequências imprevisíveis.

Logo trataram de fixar as encostas escavadas com braquiárias, capim de fácil manutenção e resultado eficiente, também empregado nas pastagens. Aviões teriam sido usados para lançar sementes por toda a extensão da estrada e, de quebra, espalharam pela terra fértil brotos de quaresmeiras. Tudo vingou, para segurança e satisfação dos que trafegam por lá, a caminho da Capital ou das praias. Até mesmo quem não gosta da combinação de cores é sensibilizado pela beleza do conjunto, tema de inúmeras fotos de viagem.

Que bom que ninguém aconselhou os paisagistas da época a adotarem outro tipo de vegetação. E, melhor ainda: que bom não existir quem pudesse sugerir ao Criador utilizar outras tintas para colorir a quaresmeiras…

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 700 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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