Meu primeiro celular (Domingos Pellegrini)

Posted on 09/03/2015

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Domingos Pellegrini*

É preto e luzidio feito uma pequena lápide.

É um nenetrônico que precisa mamar na tomada todo dia.

Fala, fota, filma, edita, conecta e até dança, vibrando e deslisando encima da mesa.

Mas tem me servido para nada, pois, quando lembro de levar, está descarregado, ou, quando está carregado, esqueço de levar.

E já me deu vexame. Eu voltava da cidade, cansado do inferno do trânsito, parei num boteco pertinho de casa para aquela cerveja sem culpa.

Aí toca a musiquinha do celular, fui tirar do bolso, deixei cair, peguei, tentei atender, procurando botão, mas lembrei que não tem botão, é só tocar, então toquei aqui e ali, e nada.

Notei que todos estavam me olhando, tinha virado um teatreco, teatro de boteco, todos esperando o tal escritor conseguir atender o celular.

O sujeito da mesa ao lado estendeu a mão: – Posso ajudar?

Dei o celular, o samaritano fuçou daqui-dali, até descobrir:

– Tá descarregado, tio – assim me botando no devido lugar, um velho antiquado e distraído.

Perguntei como podia estar descarregado se tinha tocado. Então tocou de novo, e ele atendeu o celular dele, com musiquinha igual à do meu. O meu não tinha tocado.

Tomei a cerveja, cheguei em casa, botei o danado na tomada e fui tomar banho, aí ele tocou. Me enxuguei depressa, atendi, era da telefônica querendo me vender não sei o que. Acho que ele é programado pela telefônica para tocar sempre que estou almoçando ou tomando banho.

Mas celular é bom, é muito bom – para ser esquecido, mais que guarda-chuva.

Já esqueci no banco, no açougue, na farmácia e no supermercado, até aprender que ele não pode andar na mão, tem de andar no bolso.

Então ando com a carteira num bolso, no outro o celular, parecendo aqueles peões que, nos anos 50, depois de meses derrubando mata, desembarcavam na rodoviária com maços de dinheiro tão grossos, nos bolsos, que os vigaristas viam de longe e iam atrás.

Mas fomos viajar e Dalva acionou o GPS do celular, que maravilha! Sair daqui e chegar lá onde for, com um mapinha em tempo real te indicando o caminho, uma voz te prevenindo onde virar, que saída pegar na rótula, eteceteretrans, cheguei a beijar o celular.

Mas os planos de entrar no Facebook, motivo pelo qual comprei o danado, esqueci. Simplesmente não tenho paciência para ficar falando de mim, postando banalidades e recebendo em troca trivialidades.

Dalva diz que há um mundo por descobrir no celular se eu tiver um pouco de paciência e um mínimo de interesse. Então acho que nada tenho de paciência e interesse nenhum, pois continuo só recebendo e fazendo chamadas, para tão pouca gente a quem dei o número, que fico pensando porque tenho celular afinal.

Mas bati umas fotos. Estão não sei onde dentro do Pretinho, como passei a chamar o celular. Espero que nenhuma sociedade de defesa dos direitos humanos me processe por e-racismo.

E descobri que ele é bom mesmo para anotar as idéias que me vem. Lembro de alguma coisa, pego o papel que sempre levo no bolso de trás da calça, e faço a anotação no papel sobre o celular a palma da mão; e ele que assim se torna uma mini-escrivaninha, a escrita sai legível e alinhada.

Mas às vezes a anotação é longa, idéia para alguma crônica, por exemplo. Então estou pensando em comprar um celular maior, mesmo que não caiba no bolso, pendurarei no pescoço.

Dalva diz que eu devo é procurar um psicólogo. E eu nem sabia que já tem psicólogo especializado em celular. Vivendo e… Epa, ele tocou! Quem será? Só atendendo pra saber. Mas cadê o botão?

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM, Pellegrini escreve às segundas-feiras.

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