A saudade prematura de Sérgio Porto

Posted on 09/03/2015

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Henrique Fendrich


– Nós vamos voltar todos e só você vai ficar aqui e terá que viver o resto da vida inventando histórias até o dia da morte, quando poderá voltar ao grupo escolar.

Esta foi a profecia que d. Margarida, a professora, embora morta há mais de vinte anos, jogou em cima do cronista Sérgio Porto, então com pouco mais de 30 anos – e já cheio de saudades da infância. De fato, o devaneio em que Sérgio se imagina outra vez no grupo escolar de que fez parte é apenas um dos momentos nostálgicos que permeiam o bom “O homem ao lado”, seu primeiro livro de crônicas, relançado ano passado pela Companhia das Letras.

Embora não costumasse guardar cartas ou fotografias, justamente para fugir à melancolia das recordações, àquela altura da vida o tempo já havia corrido o bastante para que a memória de Sérgio recriasse à vontade aquilo que considerava marco em seu caminho. E, ora lamentando que não fosse mais o mesmo menino, ora afirmando a resistência daquele menino dentro de si, Sérgio Porto relembra episódios, personagens e lugares dos primeiros anos de sua vida. Porque, afinal, “a gente sempre se sente um pouco mais alegre da alegria que teve”.

Mas o tempo pode contra tudo e contra todos, menos contra aqueles que a morte já levou, e por isso é que neste mergulho ao seu próprio passado o cronista não encontra mais a vida da forma que ela era. A rua em que morou naqueles anos, por exemplo, de sua conservava apenas o nome – perdeu aquele encanto que todas as ruas de bairro devem ter.

O primeiro edifício veio em 1936 e os outros vieram logo em seguida, como praga. Na sua própria casa ergueu-se um monstrengo arquitetônico, que levou por diante árvore, sombra, casa, varanda e sombra da varanda. A rua ficou sombria e espremida entre aqueles prédios enormes, “cheios de gente fria, homens indiferentes que mal se cumprimentam, para evitar possíveis intimidades” – corriam ainda os anos 50. Também é doloroso quando o cronista vai até um casarão da sua infância e o encontra em ruínas – catedral vazia da sua memória.

portoO menino Sérgio Porto, tentando resistir. 

Ora, Sérgio sabia o quanto significa para a felicidade de cada um a comunhão do homem com seus bens e costumes, suas manias e hábitos (aprendeu isso com um estudante pobre). Por isso é tão difícil se mudar, por isso é tão difícil reconhecer as mudanças que o tempo trouxe. Já não há mais porões nem sótãos, já não pode aproveitar os verões como uma criança, já não se joga mais bola no pátio da igreja – os muros branquinhos são prova disso. Também as festas de Carnaval e São João já não são a mesma coisa. Já não se encontra mais um refresco de cajá!

Olhem para este retrato – que já começa a ficar amarelo – de um almoço de comemoração. Alguns convivas, a morte levou – outros foi a vida, nos desenganos. “Éramos mais unidos aos domingos”, constata. E às vezes as recordações vêm conforme o ambiente ou a predisposição. Há, por exemplo, aquela mulher que se recorda quando se está na mesma sala, na mesma data, tomando a mesma bebida. E há também os versos de um poeta, que fazem ressurgir emoções pungentes de tempos idos e vividos. Sim, Sérgio Porto envelheceu – aos 30 anos.

Talvez seja por isso também que não gostava de comemorar o seu aniversário. E também via com certa ironia e condescendência ao gênero humano a passagem de mais uma virada de ano. Afinal, os mesmos problemas nos aguardariam nos próximos trezentos e sessenta e cinco dias. Bom observador, Sérgio via o drama e a maneira singular com que cada um dos seus conhecidos encarava a batalha da vida. Disso surgiram relatos de tipos curiosos como o “Escafandrista da Aurora”, “Mausoléu”, “Latricério”, “Cotoco” – sobretudo, “Pedro Cavalinho”. Personagens líricos que têm em comum o fato de pertencerem ao passado do autor.

De fato, o cronista Sérgio Porto é muito mais melancólico do que se esperaria do criador de Stanislaw Ponte Preta. Nem por isso deixa de dar espaço ao riso. Às vezes, a pura molecagem, como em “Bichos” e “O ABC da História”. Há pequenas histórias, muitas inusitadas, como “Alta patente” ou “O grande mistério”, divertidos textos domésticos como “A revolta de Almira” e “Um temperamento dramático”, mas também a singeleza de “Caixinha de música”, o drama de “Apelo” e a repentina ternura de “Todos os filhos de Deus têm asas”. Há mesmo um texto (“Divisão”) com mote e abordagem bastante semelhantes aos de “Partilha”, de Rubem Braga (escrito antes).

De todos os textos que escreveu entre 1952 e 1956, estes foram os que mais agradaram a Sérgio, a ponto de achar que mereciam ser republicadas no formato de um livro. Se nelas é possível reconhecer um homem que lastima a passagem do tempo, também é verdade que ele reconhece que “Casimiro de Abreu não foi mais criança do que ninguém”. Um dia, a sua filha Giselinha, vivendo em um inexpressivo cenário, dentro de um apartamento modesto, correndo do quarto para a sala, daí para a cozinha, e de lá outra vez para o quarto, também sentiria saudades da sua infância. E é bom que seja assim, porque nos amortece o remorso.

porto e as filhasSérgio e as filhas: cada um sentiria saudades da sua própria infância. 

Mas não durou muito o castigo de d. Margarida ao cronista: já em 1968, aos 44 anos, portanto, tendo inventado muitas histórias, Sérgio Porto pôde, enfim, voltar ao seu grupo escolar.

homemaolado

Sérgio Porto, “O homem ao lado”

Companhia das Letras, 2014, 248 p.

R$ 44 impresso, R$ 31 e-book 

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