Na hora feliz em que sacamos dinheiro [Marco Antonio Martire]

Posted on 04/03/2015

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(Imagem: Marcelo Oliveira)

Marco Antonio Martire*

Não lembro quando eles começaram a fazer parte de minha vida. Já tinham se disseminado quando eu comecei com a minha conta? Está escrito no talão de cheques que mal uso: cliente bancário desde 1996.

O primeiro caixa eletrônico do Brasil foi inaugurado em 1983 e serviu então de palco para cenas inusitadas: numa delas, indagado sobre o número de sua conta, um rapaz abaixou-se até a altura do teclado e respondeu baixinho qual era o número; noutra, uma mulher abanava e assoprava a tela, tentando apagar dela as informações do seu extrato.

Antes dos caixas eletrônicos, enfrentávamos filas nos caixas tradicionais para sacar dinheiro, sacava-se bastante dinheiro a cada ida ao banco, era comum guardar quantias consideráveis em casa. Fui acostumado desde cedo a frequentar os bancos, meu pai era comerciante, eu e meu irmão éramos os encarregados de fazer os depósitos na conta da firma. Lembro de longas filas nos caixas tradicionais, ainda não tínhamos o sistema de fila única, em uma agência de respeito operavam pelos menos seis caixas por vez e para cada um deles havia uma fila, acontecia de na sua frente estar um sujeito cujo atendimento durava mais de meia hora, grande azar seu, ficava esperando.

De lá para cá, os caixas eletrônicos conquistaram enorme espaço, quando foi a última vez que troquei ideia com alguém da minha agência? A gente confia tanto no sistema que em caso de problema perdemos a calma e o controle. Aconteceu muito no Carnaval, os bancos montaram tapumes protegendo as agências, sobraram os caixas 24 horas, que ficaram lisos lisos em zero segundo. A menina toda fantasiada vinha de algum bloco alegre, parou de táxi diante do 24 horas querendo sacar para pagar a corrida. Cadê dinheiro? Nem uma notinha velha de dois reais. Não sei o que deu nela, começou a chorar feito uma descamisada, provavelmente imaginou que teria de vender o corpo para o taxista. A choradeira atraiu foliões, os bêbados se compadeceram tanto da menina que fizeram uma vaquinha e pagaram o táxi. Ganharam uma bela parceira de folia, foi ela embora com o grupo de rapazes, quem seria o(s) eleito(s) para uns amassos de agradecimento eu não vi. Carnaval tem dessas coisas, no Carnaval ainda é possível ser contente.

Noite dessas, deixei para sacar dinheiro na última hora. Na agência onde funcionavam os caixas eletrônicos, as luzes estavam apagadas, só as telas acesas brilhavam parcamente na escuridão das oito da noite. Não havia a luz indireta de um poste, nada. Só breu.

Tateei a noite dentro daquela agência desagradável, sentia um tiquinho a mais de medo que o normal, não enxergava um metro à frente. Alcancei o caixa eletrônico e comecei a operação discretamente. Uma voz próxima então rompeu o silêncio angustiada.

– Ai, me ajuda.

Quase alcancei o teto com o salto que dei de susto, nós todos tememos o assalto na hora feliz em que sacamos dinheiro e surge aquela voz? Virei-me todo arrepiado.

Uma senhora havia tropeçado na escuridão, jazia estatelada no chão diante dos caixas eletrônicos. E eu temendo qualquer tipo de golpe. Levantei a senhora do chão, que tão logo se pôs de pé, ganhou confiança e arriscou passos com a bengala. Esqueceu o caixa eletrônico, fomos até a porta, ela insistiu que não precisava de mais ajuda, foi indo sem sacar dinheiro nem nada.

Eu retornei ao breu, fiz o meu saque e parti com receio ainda sólido no peito. Mas a experiência não passara de um susto, não havia golpe ou alguém que me espreitasse. Os únicos de olho no meu saque vigiavam através das câmeras em nome do banco, esses permaneceram imóveis.

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Marco Antonio Martire nasceu no Brasil em 1973 e formou-se em Comunicação Social pela UFRJ. Seu livro de estréia, Capoeira angola mandou chamar, ganhou o Prêmio Lucilo Varejão para obra inédita concedido pelo Conselho Municipal de Cultura da Cidade do Recife, tendo sido publicado em 2000. Marco edita suas obras de forma independente desde 2012 e publica suas crônicas no BLOGUI DO MARCO (www.obloguidomarco.blogspot.com), no CABANA DO LEITOR (http://cabanadoleitor.com.br/) e aqui na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras. Vive na cidade do Rio de Janeiro.

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