Primevo teatro (Domingos Pellegrini)

Posted on 02/03/2015

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(Imagem: Ariadiny Giraldi)

Domingos Pellegrini*

Deus às vezes tirava uma soneca. Tinha criado tudo aquilo, os céus, a terra, os mares, o sol, os animais, entre eles aqueles dois que ele tinha proibido de comer a maçã, só para ver se, com tanta inteligência que lhes tinha dado, também teriam obediência. Mas eis que abriu os olhos e o que viu? Adão comendo a maçã! Com sua voz de barítono, Deus ribombou:

Adão,
ora-faça-o-favor!
O que é que você fez?!

Adão quis se fazer de desentendido, tentando esconder a maçã mordida naquela tanguinha de folha de parreira, que não escondia nada, idéia ridícula de Eva. Deus insistiu: hem, Adão, que é que você fez?

Quem? Eu?
Pequei, Senhor
mas foi a primeira vez!
Perdoa, né?

Deus ficou um tempão pensando, tinha de ter paciência infinita mas não conseguia, afinal estava lidando com as criações em que mais botava esperança e… ali estava Adão, sua criação, dotado de inteligência, imaginação, vontade, sensibilidade, e sujeito à tentação de comer uma fruta só porque era proibida! Então falou com divina compaixão:

Perdoar, Adão?
Quisera eu!
Não posso,
vão me cobrar!

Eva cochichou no ouvido de Adão: eu não disse que ele não era tão poderoso quanto diz? Vamos comer essa maçã e pronto! Mas Adão voltou a pedir perdão, Deus voltou a repetir:

Quisera eu!…

Eva resolveu entrar na conversa em alta e clara voz:

Mas não dizes
que és Deus?
Então nos faça felizes!

Deus sorriu, naquele jeito dele de sorrir através de nuvens se colorindo, ventos sussurrando, águas murmurando:

Eu fiz vocês felizes
mas com a condição
de não comerem a maçã!

Eva ficou mordendo os lábios até falar com as mãos na cintura, ousada como afinal ele mesmo tinha criado:

Mas quem há de
te cobrar, Senhor?!

E Adão encorajado repetiu:

Sim, senhor, quem há de?

Deus falou silenciosamente, deixando uma folha cair na água da lagoa, para fazer ondinhas em círculos.

O Infinito me cobrará:
eu o criei para lembrar
que tudo deve funcionar
direitinho, desde os astros
até a areia mais fina,
ou tudo se torna desastre

Eva não se conformava:

Ora, Senhor, quem há de
te cobrar? Espere até amanhã
enquanto comemos a maçã e…

Deus falou armando com ventos e trovões uma tempestade:

O tempo, ora, o tempo
é sempre agora
e há de me cobrar
Eternidade afora!

Eva e Adão correram para uma caverna, a se proteger da tempestade, e lá se encolheram abraçados e molhados. Eva lembrou: cadê a maçã? Adão murmurou confuso, pensando o que nunca tinha pensado antes:

Maçã? Que maçã?
Estou é aqui pensando
como será amanhã!?

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM, Pellegrini escreve às segundas-feiras.

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