A última viagem de Hannelore Grünberg-Klein [Mariana Ianelli]

Posted on 28/02/2015

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Mariana Ianelli*

Hannelore estava entre os 936 a bordo do navio St. Louis, que saiu de Hamburgo em maio de 1939 procurando abrigo em Cuba. St. Louis chegava doze dias depois do Iberia, outro navio de refugiados recém-ancorado em Havana. Sem igual sorte, mesmo com a oferta de 500 dólares por pessoa, St. Louis foi recusado nos Estados Unidos, depois no Canadá. Foi recusado em todos os portos, pelo que ficou conhecido como o navio que não encontrou país que o acolhesse do outro lado do Atlântico. De volta a Europa, aportou na Antuérpia, de onde os passageiros tomaram diferentes rumos, Inglaterra, França, Bélgica, Holanda.

Hannelore estava entre os 181 que foram para a Holanda. Depois de alguns meses com seus pais no Lloyd Hotel, em Amsterdã, partiu para o campo de refugiados de Westerbork. Ela estava lá, uma menina de doze anos, mais curiosa do que assustada, quando só o que havia em Westerbork eram barracões num deserto de tempestades de areia feito de ¾ de céu como numa paisagem de Pieter Gerardus van Os. Estava lá quando os nazistas chegaram com seus cães para fazer de Westerbork um campo de deportação em massa. Viu a construção das torres de vigia, o primeiro trem de judeus para o Leste, e a rotina, a partir de 1943, de transportes toda terça da semana, numa média de mil passageiros por viagem. Caindo os privilégios para os internos mais antigos do campo, também ela partiu em 1944 na famigerada jornada de três dias em pé feito sardinha num dos trens, primeiramente para Theresienstadt, depois Auschwitz. Na triagem, seus pais foram para a esquerda, ela, para a direita. Uma vez, nevava em Auschwitz, Hannelore encontrou uma garota do seu velho grupo, mas a garota não a reconheceu, tinha sido empedrada pela medusa, não reconhecia mais nada nem ninguém.

Em 1945, com a aproximação dos russos, Hannelore foi enviada de Auschwitz para Mauthausen. Com o fim da guerra, estabeleceu-se em Amsterdã, casou, teve dois filhos. Arnon, hoje escritor, com dois livros publicados no Brasil (“Dor fantasma” e “Amsterdã Blues”), escreveu recentemente em seu blog sobre a mãe, que morreu no dia 9 deste mês, aos 87 anos. Hannelore partiu de Amsterdã para Jerusalém em sua última viagem. Arnon diz que agora começa para ele um “tempo extra”, ironia triste para um filho cuja mãe, voltando da América para a Europa no enjeitado St. Louis ou prensada entre mais cem num vagão de carga para Auschwitz, poderia ter pensado o mesmo, com mais razão. Ventava em Jerusalém, no funeral. O escritor faz um relato breve desse dia, com emoção contida e um leve traço bem humorado. Segundo ele, o humor está aí para honrar um dos melhores legados de sua mãe. O humor, além dos mesmos olhos verdes e o mesmo cabelo claro desobediente que Arnon herdou de Hannelore.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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