Sanduíches assimétricos: o próximo!

Posted on 26/02/2015

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Elyandria Silva*

Não existia fila. Não precisávamos esperar tanto para fazer algo ou para ser atendido em algum lugar. O mundo era dominado por seres repletos de paciência, calma, educação. As pessoas aguardavam sua vez e não tinham “pitis” porque o cidadão da fila ficava pensando qual folha de alface seria mais conveniente pegar. Acontece que isso, pelo que lembro, era na minha infância, na adolescência, onde uma garota do interior levava uma vida pacata, uma rotina tranquila, dessas em que o tempo engatinha, algo que tento resgatar hoje para não enfartar de estresse aos quarenta anos.

Atualmente não passamos de PRÓXIMO. Eu sou a PRÓXIMA, você é o PRÓXIMO, somos os PRÓXIMOS sempre chamados por vozes apressadas, impacientes.

A pressa não é mais inimiga da perfeição. Elas se tornaram boas amigas e são obrigadas a fazerem um bom trabalho, senão…

Entro com uma amiga numa lanchonete dessas em que se monta o sanduíche escolhendo as opções e dizendo para a atendente o que se quer. Tem fila, rapazes fazem suas escolhas. Conversamos, conversamos, aguardando nossa vez. A fila avança um pouco. Conversamos, conversamos, aguardando nossa vez. “PRÓXIMA”, quando ouvi a moça já estava impaciente.

– Oi! – tento ser simpática para amenizar minha distração.

– 15 ou 30 – a moça é séria, não sorri, está ali para montar sanduíches, não para cumprimentar e explicar o óbvio para clientes patetas. Fico pensando o que poderia ser, qual parte não entendi. Não consigo, me dá um branco.

– 15 ou 30 o que? – vejo pelo canto do olho que os rapazes ao lado me olham espantados.

– O pão – Ah sim, claro, o tamanho do pão, céus, como sou ignorante.

– Quinze – respondo.

– Prato, xxxx, xxxx ou xxxx – a moça fala muito rápido, mas compreendo que são queijos. Especialidades queijeiras não são meu forte, na verdade queria mesmo um tipo o Polenguinho, mas não tinha.

– Prato – escolho o que já conheço para não complicar. O que queria mesmo era uma pequena explicação dos outros, se combinariam com salame, se seriam indicados para um sanduíche italiano e se poderia provar um pedacinho de cada um para escolher. É só uma utopia do mundo moderno, claro que se expressasse tal desejo em voz alta seria linchada pelo pessoal da fila.

Outras perguntas continuaram me confundindo cada vez mais pela rapidez com que tinha que responder. O sanduíche foi para um forno. Avanço para o lado, para a próxima etapa, o de escolher complementos para o sanduíche. Fico olhando, pensando. Pensando e olhando, eram várias opções, mas quando olho a moça já está com sanduíche aberto na minha frente, com cara de poucos amigos. Decido num limiar de segundos, entro no jogo. Ela joga tudo dentro. Gol! Vamos lá, em frente! E lá vem mais decisões, agora de saladas. Nem deixo ela me olhar, disparo: “alface, agrião”. Agora os molhos, nem deixo ela terminar a frase “mostarda”. Só isso? Sim. Ela me olha admirada. O sanduíche é fechado. Terminou! Não, quem dera. No caixa tem mais perguntas, mais decisões, já estou exausta. Para beber queria um suco natural, que nada, sem esse negócio de natural. Sprite, sim escolho refrigerante depois de mais de um ano sem beber tal bebida. De vez em quando não tem problema.

Finalizado. Aí vem a parte em que você se torna um equilibrista. Bolsa, bandeja, sanduíche, copo cheio. Atrapalho-me horrivelmente com a máquina de refrigerante, não me recordava como manuseava. Fico diante da geringonça olhando os botões. A suposição da cena mental da máquina explodindo um chafariz de Coca, Fanta, guaraná e e Sprite em cima de mim é inevitável. Os rapazes que antes me olharam espantados me observavam de novo, cochichavam entre si, pequenos risos, o que me deixou mais atrapalhada para encher o copo com o refrigerante. O sanduíche quase vai para o chão, seria terrível. Tampo o copo e sigo para a mesa. Ao tirar a tampa para beber percebo que todas as pessoas estão usando canudos. Levo mais um tempo até encontrar o canudo perto do caixa, se fosse uma cobra teria me mordido.

Como o sanduíche em silêncio tentando lembrar quando foi que me tornei tão caipira. Há muitos anos atrás tinha ido numa lanchonete dessas, mas não me lembrava do funcionamento e tudo me pareceu rápido demais. O sanduíche ficava bagunçado e prefiro sanduíches mais organizados no recheio, mais assimétricos. Preciso de comidas organizadas. Não conseguiria comer num prato onde o feijão está em cima do alface e o peixe em cima do arroz. Tem que ter o desenho, a organização, a estética da beleza. Um sanduíche deve ter a estética da beleza interior para dar apetite.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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