A frivolidade nada inútil de Drummond

Posted on 19/02/2015

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Octogenário, Drummond continuava fazendo crônicas leves e joviais – talvez até frívolas, sem que vá aí nenhum demérito. Pelo contrário, o cronista sabia que o inútil tem a sua forma particular de utilidade. Por isso reivindicava o espaço descompromissado no jornal, sem necessidade de esclarecer problemas, orientar leitores, advertir governantes ou ditar normas aos senhores do mundo. Até pede desculpa por não se ocupar de notícias, mas se justifica dizendo que “tudo que se passa no coração da gente é notícia”. E o que seria de nós se tudo o que pudéssemos ler seguisse os critérios de eficiência, produtividade e rentabilidade! Mas vem aí um Drummond, junta um punhado de crônicas, organiza um livro como “Boca de Luar” (Companhia das Letras, 2014) e consegue até esclarecer problemas do coração da gente.

De fato, o cronista se ocupa de assuntos domésticos, cotidianos, triviais, tão característicos do gênero. Muitos episódios nascem no ônibus, no táxi, em um encontro informal na rua. São bastante frequentes os diálogos, aparentemente nem todos reais, mas todos reveladores da grande sensibilidade do escritor. O cronista se detém diante dos pequenos dramas humanos e existenciais de uma cidade superpovoada. No meio do “descompromisso” é possível perceber uma latente inquietação social, uma preocupação maior com os mais humildes, normalmente os personagens de suas crônicas. Há mesmo uma ironia frente a algumas convenções sociais e aos interesses do jet set, e um certo desconforto com os rumos da civilização.

Embora nenhum texto seja eminentemente político, é curioso observar, aqui e ali, algumas pequenas insinuações de Drummond em relação ao momento em que pais vivia nos primeiros anos da década de 80, quando se ansiava pela reabertura democrática. Também os problemas municipais, no Rio de Janeiro, interessam a ele, mas sempre pelo viés mais poético – e não era de se esperar outra coisa vindo de quem vem. Há crônicas arrebatadoramente líricas, como “Carta de amor” e, sobretudo, “Agora pensei em Rosa”. O escritor faz ainda alguns pequenos contos, exalta alguns tipos curiosos, relembra alguns episódios do passado, e promove até mesmo algumas experiências formais. Tudo de forma muito bonita e permitindo ver muito do que pensava o nosso maior poeta, também um dos nossos grandes cronistas.

Henrique Fendrich

bocadeluar

Boca de Luar – Carlos Drummond de Andrade
Companhia das Letras, 184 p, R$ 45

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