Chapeuzinho e o Lobo Mau (Domingos Pellegrini)

Posted on 16/02/2015

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(Imagem: Ariadiny Giraldi)

Domingos Pellegrini*

Chapeuzinho Vermelho conheceu o Lobo Mau pela internet, trocando idéias e gracinhas, descobrindo que tinham muito em comum. Gostavam das mesmas músicas, dos mesmos filmes que já tinham baixado, e até mesmo dos mesmos filmes do tempo em que ainda iam a cinemas. E, claro, mentiam um ao outro:

– Eu sou do tipo miúda – escrevia ela – mas o pessoal gosta de mim mesmo assim…

Ele se mordia de ciúme do “pessoal”, mas aproveitava para também mentir:

– Eu sou alto, forte, loiro, embora talvez gostasse de ser moreno para poder tomar mais sol.

Ela não perdia a deixa:

– Ah, eu não tomo sol porque tenho tanto o que fazer! Aliás, o que você faz?

Mexo com informação, dizia ele, e ela ficava pensando o que seria isso. Ele perguntava então o que ela fazia, e ela dizia que lidava com comunicação, e ele ficava pensando se ela não estava mentindo, digitava feroz:

– Você não está mentindo para mim, está?

– Claro que não! – ela respondia indignada – Mas sinto que você mente para mim!

Bem, disse ele, porque não se encontravam para tirar as dúvidas? Onde, perguntou ela.

Ora, respondeu ele, num shopping, onde mais? O encontro seria numa loja de cds, mas como saberiam quem era quem?

– Bem – ele digitou lentamente – eu estarei de óculos escuros, como convém a um lobo mau moderno, e você?

– Eu – ela digitou ligeirinha – estarei de chapeuzinho vermelho como na fábula…

Ela chegou à loja e ficou olhando cds, apertando no bolso o gorro vermelho surrupiado do guarda-roupa da mãe, só colocaria na cabeça quando entrasse alguém de óculos escuros. E entrou, mas era um idoso que comprou logo um cd embrulhado para presente. Depois entrou ele, correu o olhar pela loja, viu que ela era a única ali, foi direto:

– Chapeuzinho Vermelho?

Gorro vermelho, ela corrigiu, colocando o gorro. Ele tirou os óculos, e tinha uns olhos que sorriam. Incrível, disse com uma voz levemente fanha, você é como eu pensava! E eu, disse ela com sua voz também fanhosinha, pensava que um lobo mau devia ser feio mas…

– Você é bonito, apesar de não ser nem alto, nem forte nem loiro!

– E você também não é tão miúda, somos da mesma altura!

Pois é, falaram juntos, e riram juntos.

– Você me falou que gosta de sorvete de pistache só porque é o sorvete que sua mãe tomava quando namorou seu pai, lembra? – ele perguntou e ela ficou com os olhos úmidos:

– Nossa, você lembra disso! É uma coisa que te contei logo no início do nosso… caso?

– Um caso que começou por acaso – ele suspirou olhando longe – Eu estava entediado, entrei no Face só pra encher o saco de alguém e…

Que nem eu, ela falou, e deram-se as mãos olhando nos olhos e…

Para encurtar a história, comeram-se por muitos e muitos anos ou, como eles gostam de dizer, para sempre.

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM, Pellegrini escreve às segundas-feiras.

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