Aos sobreviventes, as batatas (Raul Drewnick)

Posted on 15/02/2015

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Raul Drewnick*

Difícil encontrar um paulistano que não vá pelo menos três vezes por semana ao supermercado. É um ritual não exatamente agradável. Já saímos de casa nos queixando, chegamos estressados, fazemos as compras furibundos, pagamos exasperados e vamos embora jurando por todos os santos que não voltaremos nunca mais. Mas, se não voltarmos, o que teremos para contar no fim de semana, quando todos estiverem narrando suas incursões pelas gôndolas de cereais, de embutidos e de refrigerantes?

Ir ao supermercado é ter assunto, qualquer paulistano sabe disso muito bem. Às vezes são histórias comuns, às vezes são casos notáveis: um homem ranzinza (e mau matemático) que insiste em passar quarenta e sete produtos pela caixa de no máximo vinte; um avô que procura o gerente porque ouviu dizer não sabe onde que cinco embalagens de não sei o quê dão direito a um herói de lança e escudo; uma mulher que, virando o rosto para cumprimentar uma amiga, derruba com o carrinho trinta garrafas de vinho chileno; um garoto que vai testar uma bola e nocauteia um senhor que nem sabia que estava na barreira; um passarinho que, surgindo ninguém desconfia de onde, obriga, com voos rasantes, a clientela a se ajoelhar no chão.

Esta semana, presenciei um espetáculo que julguei extraordinário, embora me garantissem depois que todas as quartas-feiras ele se repete e tem até um nome majestoso: festival da cebola e da batata.

Assim que cheguei à frente do supermercado, notei os primeiros sinais: descendo a rampa de entrada, vi duas, dez, duzentas batatas apostando corrida. Desviei-me de duas ou três, mas as outras cento e noventa e sete me subiram pelos pés e me acertaram as canelas. Eu ainda não tinha acabado de xingá-las quando, tão rápidas e insolentes quanto elas, cento e tantas cebolas me lançaram ao chão e me soterraram.

Levantei-me. Caminhando por um terreno minado de batatas e cebolas, entrei no supermercado e consegui chegar ao ponto de origem do fenômeno: duas imensas aglomerações – uma diante de onde estavam as batatas, a outra diante de onde estavam as cebolas. Na verdade, digo isso por intuição, não por ter visto as batatas ou as cebolas. Só vi os movimentos dos frenéticos compradores, escolhendo, pegando, embalando.

De minuto em minuto, dois homens vinham empurrando carrinhos para a reposição. Mas, no meio do caminho, eles eram despojados da carga pelos compradores. Fascinado e temeroso, acompanhei a batalha por algum tempo, até que, como por encanto, sumiram do local todas as cebolas, todas as batatas e todos os compradores.

Peguei os quatro ou cinco produtos de minha lista e fui para a área das caixas. Diante de cada uma havia uma fila monumental. Todos os compradores de batatas e de cebolas – milagrosamente sãos e salvos – estavam lá, satisfeitos. Haviam aproveitado a promoção.

Esperando, resignado, ouvi o comentário de um casal à minha frente: a mulher exaltava as batatas; o homem, as cebolas. Um senhor que chegou e se pôs atrás de mim e que, assim como eu, não tinha comprado nem batatas nem cebolas, amaldiçoou tanto umas quanto as outras e, aproveitando o impulso, desancou também o casal. Olhando para mim, procurou aprovação. Eu, que sempre fui indeciso (meus ultimatos foram sempre penultimatos), sorri para ele e, depois, sorri também para o casal, que me fitava em busca de apoio. Sorriria também para as batatas e as cebolas, se elas me pedissem.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas“Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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