De pé no boulevard das misérias (Mariana Ianelli)

Posted on 14/02/2015

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Mariana Ianelli*

Cuidado, muito cuidado, abra o olho, não seja ingênuo, não vá dando assim de graça confiança, não se exponha a esse ponto. Se até um poeta já disse que a ingenuidade é louca. Dizem que para os lados de Trípoli a violência arrefece, mas o rancor, o rancor é tenaz. Veja quantas palavras escuras. Rancor, temor e tremor, Boko Haram, Solovetsky, Sobibor, Sodoma, noites de Mossul, noites das concubinas dos milicianos de Mossul. Mas então um dia alguém pega nessa paleta de palavras escuras e com insolência mística consegue alguma claridade, alguma alacridade, como aquela mulher nos tempos da Segunda Guerra que, um dia, cobrindo o rosto, se ajoelhou no tapete de fibra de coco do banheiro da sua casa e sentiu que o que estava fazendo era mais íntimo do que ir para a cama com um homem. Entre paredes intactas, ela só com seus massacres, completamente à vontade. Não existe levítico nesse mundo que obrigue alguém a amar, assim como não existe guerra que obrigue alguém a se humilhar, se para humilhar, como no amor, são necessários dois. Era como pensava a mulher que era uma oração. Era uma vez um homem que era quinta-feira, era uma vez uma mulher que era uma oração. De pé no Boulevard das Misérias, um salmo no meio da multidão, um salmo ganhando velocidade na voracidade de um pistão: o ar da noite junto ao cais, a bicicleta sobre a ponte, um campo de tremoceiros roxos e a pele esculpida pelo osso, o horror, o jejum, o frio, e a profetisa de Rembrandt para sempre curvada sobre um livro – tudo isso existe e a vida é justa.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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