O vaso (Elyandria Silva)

Posted on 12/02/2015

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Elyandria Silva*

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Todos os meses, no mesmo dia, era horrível e repugnante ver os mesmos cocos de rato e sentir o cheiro esburacado do mofo que dormia nas paredes. Não tínhamos escolha e éramos coagidos logo de manhã, assim que o dia levantava, a fazer o serviço asqueroso de papai. Um dia antes ele fazia questão de nos lembrar “Meninos, amanhã é dia de limpeza do galpão”. Eu e João caminhávamos em direção ao galpão, em silêncio, com tudo o que era necessário nas mãos. Naquele galpão estava a vida estúpida de papai. Objetos, lembranças e várias recordações desde quando ele tinha oito anos de idade. Era um mundo de coisas amontoadas de todo o tipo ou espécie, dessas que vamos abandonando vida afora. Cada vez que abríamos as portas do galpão as marcas das surras de cinta em nossos corpos magricelos ganhavam vida e escorriam em lembranças. A primeira delas foi quando não levamos em conta suas ordens e fizemos tudo ao contrário. Depois João decorou as instruções recebidas e nunca mais esquecemos: “Ouçam bem! Tudo o que está naquele galpão guardei uma vida inteira. Se quebrarem ou tirarem algum dos objetos de lá acabo com a vida de vocês, entenderam?? Apenas limpem, tirem o pó de tudo com cuidado ou…”. E assim cumpríamos. O serviço levava o dia inteiro, pois era muita quinquilharia e para limpar algo que estava embaixo tínhamos que tirar tudo de cima. Deixava para o João a limpeza dos vidros e dos objetos que podiam quebrar, eu era muito desastrado.

– Eu estou com fome Marcos.
– Já sabe que só vamos comer quando acabar tudo João. Limpou o vaso azul?
– Não, ainda não.
– Vai lá, lustra bem ele.
– Tá. Marcos…
– Humm…
– Isso não vai durar a vida inteira, vai?
– Não, um dia esse velho morre. Não esquenta não.
– Eu acho que vai demorar muito até isso acontecer.

2

A venda não foi algo fácil e passamos meses a fio articulando tudo. Desde a descoberta até a tal venda oscilamos entre o desejo e o medo. Mesmo com dezoito anos ainda éramos escravos de papai e dependíamos dele. Tirar o vaso de lá era algo impossível porque ele ia quase todos os dias no galpão, aquele louco. O vaso azul, com detalhes em desenhos azul escuro, que lembrava azulejos antigos pintados à mão era algo que até enfeitava o galpão, mas não lembrava mais que um humilde objeto de decoração. Não era grande, porém, escondê-lo ia ser algo difícil. Não havia como tirá-lo de lá, concluímos.

3

– Imaginavam que tinham um objeto tão valioso assim em casa?
– Não, eu e meu irmão nunca imaginávamos.
– E como descobriram?
– Pois é, estávamos limpando o galpão do nosso pai e descobrimos esse vaso.
– E ele?
– É horrível, mas, infelizmente, ele faleceu antes.
– Então ele nem chegou a aproveitar o dinheiro?
– Não.

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Elyandria Silva é escritora, autora de “Labirinto de Nomes” (Moleskine, 2012), “Fadas de pedra” (Design Editora, 2009, Contos) e de “Um lugar, versos e retalhos” (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas “Contos jaraguaenses” (Design Editora, 2007), “Jaraguá em crônicas” (Design Editora, 2007), “Palavra em cena” (Design Editora, 2010, Dramaturgia), “Preliminares” (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e “Mundo infinito” (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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