Ladinos Árabes Conterrâneos (Cyro de Mattos)

Posted on 10/02/2015

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Cyro de Mattos*

Nutro afeição pelas minhas origens, em especial pela cidade onde nasci e resido. Itabuna foi um burgo de penetração na época do desbravamento e conquista da terra. Sempre me vi na empatia dessa relação entre homem e civilização na qual houve uma saga nascida com a implantação da lavra do cacau pelos que por aqui passaram tangendo ventos primeiros. Na manhã em que bebi água de ribeirão, não é difícil que eu me surpreenda ao lado do sergipano, o negro, o árabe e o índio.

E, se falo agora do árabe como elemento que integra essa civilização, é em razão dos acontecimentos abomináveis que aconteceram em Paris quando terroristas islâmicos invadiram a redação do jornal Charlie no ato covarde que abalou o planeta. De sã consciência não se pode estender o ato criminoso, insano, dos mais primitivos, ao povo árabe como um todo, constituído na maioria com a crença religiosa em Maomé e de uma minoria fiel ao Cristo.

Os árabes, que reportam as tradições de seu país à mais remota antiguidade, um dia desceram do Oriente e aportaram em Ilhéus, no sul da Bahia. Espalharam-se por essas bandas, fixaram-se em cidades no nascedouro da vida. Abriram picadas para vender as bugigangas, que o burro levava ao homem ilhado na selva, já se preocupando em fincar raízes com a família na terra promissora. As picadas depois viraram estradas ligando gente que de tão distante um não conhecia o outro na selva hostil. De longe, os árabes chegaram e iniciaram os nativos na sua maneira de fazer uma culinária saborosa. Animaram o Carnaval com suas fantasias de beduíno, faraó, Cleópatra, odalisca e bailarina. Vidrilho, lantejoula, confete e serpentina vendiam no armarinho. E mais: cetim, tafetá, seda, renda e tapete. Deram enorme contribuição no desenvolvimento do comércio. Instalaram lojas para vender artigos de campo e cidade. Tinham uma vocação nata para vender e comprar. Vendiam bem e compravam melhor.

A memória acordada no fumo do tempo lembra a professora Lourdes Hage, que me ensinou o ABC na Escola do Montepio dos Artistas. As famílias Midlej, Maron, Sussa, Habib, Harfush e Agle. Alguns de seus descendentes estudaram comigo no único ginásio da cidade. Eram alunos aplicados e inteligentes. Vejo, assim, uniformizados, comparecendo alegres ao ginásio os alunos Abud, Mary Kalid, Abla e Marcel. Como vejo ainda na sala de aula as professoras Odete Midlej, Lode e Alice Maron. Não devo esquecer o professor Arbage, ele me ensinou a gostar de matemática. O recreio ficava uma delícia com os sorvetes do Danúbio Azul, de Seu Sussa. A sorveteria ficava perto do ginásio.

Transmitiam o hábito do saber com facilidade aquelas três professoras do nosso ginásio. Odete Midlej ensinava português, Lode era a professora de desenho, Alice Maron lecionava francês. Aprendíamos com suas lições que estávamos sendo preparados para ser gente. O fato de aprendermos com aquelas professoras, vindas de terras estrangeiras onde a língua era outra, falando corretamente o nosso idioma agora, causava admiração entre os estudantes. Abro parêntesis para o amor entre o estudante Nassim, também árabe, e a professora Alice Maron. Descobriram-se apaixonados, um dia. Beijaram-se, na mais linda forma do amor, sem ligar para o olho alheio. Casados mudaram para o Rio onde ergueram seu ninho, dizem que fugindo das más línguas itabunenses da época.

Os seres humanos continuam andando nos mesmos passos em qualquer lugar desse velho mundo. Entre o bem e o mal, vento verás ventar canção, disse o poeta. Há milênios que as religiões vêm tentando mostrar ao ser humano que braço ao abraço a rosa fica mais fácil de ser colhida no cotidiano da vida. Há milênios nós os humanos estamos construindo a história de nossa condição com intolerância, violência, egoísmo. O que sabemos de Deus? Da dor e a solidão? É preciso fazer a separação do que é a regra e o desvio da ternura movido por forças irracionais.

Quando menino, conheci aqueles árabes, os meninos de minha geração chamavam eles de gringos. Jogavam gamão na manhã de domingo, no Itabuna Clube. Falavam uma língua que eu não entendia sequer uma palavra. Faziam-me sorrir. Terminada a distração deles com o jogo, saíam alegres, tagarelando na sua língua engraçada. Não devemos confundi-los, como de resto grande maioria, com perversos terroristas islâmicos. Merece repúdio o terrorismo, não deve prosperar o ato covarde que vitimou os doze jornalistas na redação do jornal Charlie. Em nome da liberdade de expressão não se deve agredir, também, a crença de outras religiões e fomentar o ódio.

Maomé, o fundador do islamismo, e Cristo, o bem-amado salvador da humanidade, dizem da unidade de Deus, paz e amor.

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*Cyro de Mattos é contista, poeta, cronista e autor de livros para crianças. Conquistou o Prêmio Internacional de Literatura Maestrale Marengo d’Oro, em Gênova, Itália, com o livro “Cancioneiro do Cacau”, o Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, com “Os Brabos”, contos, e o APCA com “O Menino Camelô”. Finalista do Jabuti três vezes. Tem livros publicados em Portugal, Itália, França e  Alemanha. Distinguido com a Ordem do Mérito da Bahia. Pertence ao Pen Clube do Brasil . Na RUBEM, Cyro de Mattos escreve quinzenalmente às terças-feiras. 

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