A de Alegria, A de Alívio (Rubem Penz)

Posted on 06/02/2015

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Rubem Penz*

Mais de uma vez fui questionado sobre estar ou não feliz em um momento típico de euforia coletiva. Todos em minha volta pulando, dançando, aos gritos e gargalhadas, e eu lá: apenas sorrindo. Um sorriso que em nada se diferencia daqueles que oferecemos a uma graça banal, em um cumprimento afetuoso, quando há simples contentamento. Cena que se repetiu nesta semana: ao recebermos uma notícia maravilhosa, quem estava comigo respondeu com saltitante entusiasmo e estranhou minha tranquilidade monacal. Soou como se aquela confirmação, tão ansiosamente aguardada, tivesse pouca importância.

Para não quebrar o clima, tratei de me justificar. Porém, depois de uns “não é bem assim”, “estou muitíssimo contente” e “isso é realmente maravilhoso” ditos com muita sinceridade, passei a investigar os porquês da minha suposta frieza. Onde andaria o meu ânimo, afinal? Puxa daqui, estica de lá, encontrei-o contido por uma espessa e sufocante camada de alívio. Sem orgulho ou vergonha, faço parte de um grupo de pessoas cuja maior constante é a cobrança interna de resultados. Ela, quando somada às expectativas elevadas, ao invés de produzir agitação quando se cruza a linha de chegada, traz relaxamento. Enquanto muitos explodem, eu sereno.

Ao leitor tipicamente empolgado isso pode parecer gênero, excentricidade, frescura. Blasé, como dizem os franceses. Mas acredito que há muita gente com reações parecidas com a minha e interessada em compreender o que se passa. Acredite: dissimulados permanecemos ao esconder dos outros o tumulto interior que antecede o desfecho de qualquer projeto. Uma entropia para a qual concorrem milhões de moléculas de esperança a se chocar umas nas outras, nas paredes dos limites do que pode ser feito e em variáveis fora de controle. Investimos tanta energia tentando ordenar o caos que, ao fim, nossa felicidade vem em forma de paz. Nossa falta de vibração nada tem de frieza: é pura exaustão.

A boa notícia da semana, somada a outras, dá indícios sobre o ano de 2015, tantos e tão bons são os projetos aos quais estou engajado – novidade que fez meu par saltitar de contentamento. Olho para os meses que o horizonte do calendário descortina como um navegador para o oceano: que venham ventos e tempestades, pois tudo o que eu quero é chegar em dezembro (a outra margem) sorrindo feliz. Como de costume, de puro alívio.

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*Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro de estreia, O Y da questão e outras crônicas, foi finalista dos prêmios Açorianos de Literatura e Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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