Sala de espera (Domingos Pellegrini)

Posted on 02/02/2015

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Domingos Pellegrini*

Um está de olhos fechados, outro fumando espera. Apaga o cigarro no vaso, o outro abre os olhos e aponta câmera. O que fumava senta ao lado, fala olhando os pés:

– Tô aqui só porque preciso desse emprego, né, a gente tem de comer, senão…

Olha a sala vazia, baixa voz:

– Meu pai diz que o Brasil precisava dum Fidel, mano…

– É? E o que teu pai faz?

– Fazer não faz, só cobra, é fiscal do governo. Ele diz que toda empresa é sacana.

Um volta a fechar os olhos, outro bate a mão no bolso da camisa mas olha a câmera, deixa o maço lá.

– Será que não aceitam quem fuma?

É inconstitucional, diz o de olhos fechados. O outro pisca que pisca, repisca, pergunta que é que você falou, mano?

– É inconstitucional. “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”. E “ninguém fará ou deixará de fazer senão em virtude de lei”. E não tem lei proibindo fumar.

O outro está de boca aberta, até falar abobado:

– Cara, você… tá aqui procurando emprego mas… você podia ser advogado, meu, podia… ser vendedor, vereador, sei lá!

Ele abre os olhos.

– Não estou aqui procurando emprego, quero é trabalho.

O outro meio que sorri:

– Tá me zoando, mermão? Qual a diferença?

– Meu pai dizia que quem só quer emprego não vai pra frente.

No pátio passarinhos comentam o silêncio. Um volta a fechar os olhos, o outro volta a botar a mão no bolso da camisa para pegar o maço, mas olha a câmera e finge se coçar.

– Inconstucional… Mas a gente não pode fumar em restaurante, ônibus, cinema, elevador, até em shopping não pode, então pra que todo aquele espaço?! Que adianta não ter lei proibindo fumar se na prática só dá pra fumar em calçada e olhalá?!

– E recolhendo a bituca, tio… – o outro sussurra – …senão a bituca vai pro rio.

Então o fumante enfia a mão no bolso, tira o cigarro, acende com gosto e a primeira tragada de vingança e desforra é soprada para o que continua de olhos fechados, mas narinas não fecham.

Ao fim do cigarro, bituca no vaso. Um abre os olhos, o outro sorrindo esmaga a bituca na terra, até ouvir as palavras como pedras caindo na sala:

– Emprego é pra sobreviver, trabalho é pra crescer. O senhor está dispensado.

Os passarinhos riem.

– Mas você é…

– O gerente de pessoal da empresa. O senhor está dispensado.

– Então é assim? Tipo pegadinha? Dispensado então?! Por causa da bituca ou do cigarro?

– Não por isso, eu também fumo.

– Então o que, cara? Nem olhou pra mim sempre de olho fechado!

Sorriso. Aperto de mão.

– Boa sorte.

– Sorte?! Eu preciso é de emprego, cara!

– Por isso mesmo. Boa sorte.

Os passarinhos silenciam, a sala de espera se esvazia, mas o vaso está cheio de bitucas.

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM, Pellegrini escreve às segundas-feiras.

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