O baixinho orelhudo e o timão da conduta (Mariana Ianelli)

Posted on 31/01/2015

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Mariana Ianelli*

Famoso no século passado em Buenos Aires, “el petiso orejudo” foi o primeiro e mais jovem assassino em série da Argentina. Só dos sete aos nove anos foram três tentativas de assassinato, vários passarinhos torturados e uma passagem pela polícia. Não frequentava nenhuma escola porque já tinha sido expulso de todas. Aos onze anos, depois de queimar com um cigarro as pálpebras de um menino, foi reapresentado à polícia e de lá encaminhado à Colônia Nacional para menores de Marcos Paz, de onde saiu no final de 1911.

Pondo em prática os ensinamentos da Colônia, “el petiso orejudo” matou um garoto de treze anos usando uma corda e um galho de figueira, pôs fogo numa menina de cinco, apunhalou uma égua, incendiou uma fábrica, dois galpões, uma estação de bonde. Cayetano (era seu nome) tinha então 16 anos quando foi descoberto, em dezembro de 1912, no velório de uma vítima, procurando no cadáver o prego de quatro polegadas enfiado na cabeça. Seguiram-se daí alguns anos num hospício e vários relatórios médicos, todos unânimes na observação dos “estigmas degenerativos” do orelhudo.

No “informe Victor Mercante”, Cayetano é descrito como um tipo agressivo, sem sentimentos e sem inibição – “De suerte que sus estados de conciencia contienen, normalmente, todos los elementos menos uno, fundamental que la desequilibra, el afectivo, que es algo así como el timón de la conducta”.

Considerado imbecil, irresponsável por seus atos, vítima de abandono social e de um pai sifilítico, Cayetano chegou a ser absolvido, até que, no final do ano de 1915, não se encaixando no perfil de um “imbecil absoluto” nos termos da lei, acabou preso. Passou sete anos na Penitenciária Nacional, depois foi para a Colônia Penal de Ushuaia. O frio enregelante e a alta concentração de assassinos incorrigíveis por metro quadrado, pelo que consta, disciplinaram o orelhudo.

Quem viaja até a Patagônia Argentina fica sabendo da história de Cayetano numa visita ao museu da Colônia Penal do Fim do Mundo. O guia conta que o preso de número 90 passou por uma cirurgia estética porque desconfiavam que sua maldade provinha das orelhas de abano. Quem não tinha o tal “timão da conduta”, conseguiu, no fim do mundo, uma conduta exemplar. Uma conduta sem timão, mas “exemplar” segundo o “Tribunal de Clasificación”. O guia do museu conta que “el petiso orejudo” morreu de hemorragia interna em 1944. Parece que depois de uma surra que lhe deram por atirar dentro de uma caldeira o gato mascote dos presos da Colônia.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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