Orgulhos (Domingos Pellegrini)

Posted on 26/01/2015

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Domingos Pellegrini*

Ser orgulhoso é ruim, mas sentir orgulho é muito bom. É o que Dalva e eu sentimos sempre que vamos ao Museu Oscar Niemeyer, especialmente agora que tem três exposições inesquecíveis.

Das Vozes da Cidade, sobre os 50 anos do arqui-urbanismo mundial de Jaime Lerner, nos dá o orgulho de saber que sua obra começou em Curitiba e Londrina, cujo calçadão ele projetou.

A exposição Gênesis, de Sebastião Salgado, nos orgulha por ser brasileiros como esse super fotógrafo, diante de cujas fotos as palavras se calam.

E a exposição sobre João Turin consegue ser ao mesmo tempo carinhosa e estupenda, minimalista e monumental. Como Poty, Turin foi desses que entregou a vida à arte, mas faltava entregar sua arte ao mundo. É o que faz a família Lago, reunindo suas esculturas, fundindo os moldes, publicando livro sobre sua imensa obra e intensa vida, e enfim encarregando Samuel Ferrari Lago de produzir uma exposição que vai da bengala ao gênio do artista.

Só gente de pedra não se emociona ao passar pela réplica do humilde quarto-ateliê em que Turin vivia e criava suas esculturas e pinturas, sua arquitetura, seus desenhos e vitrais, com raízes paranistas, visão universal e estilo arrebatador. Começando a criar antes do Modernismo e durante décadas depois, não se rendeu aos facilitarismos modernistas, sempre fiel ao figurativismo e a seu povo. Turin é a florada artística das nossas raízes ancestrais e troncos rurais.

Deve ter sofrido o preconceito de ser visto como “ultrapassado” e “conservador”, mas o que vemos em suas esculturas é a atualidade e permanência de toda obra genial, que supera escolas e épocas. Qualquer caboclo entende e se emociona com as esculturas de Turin, e o crítico fica sem ter onde pegar para depreciar, pois sua competência técnica e sensibilidade fina estão sempre abraçadas com uma arquitetada rusticidade, uma rusturinidade que o faz único e moderno antes e depois do modernismo.

A carinhosa curadoria de José Roberto Teixeira Leite emociona com detalhes como as ferramentas de Turin enferrujadas e iluminadas feito preciosas relíquias; o catre onde o artista descansava os ossos depois do dia operário; seus objetos pessoais reveladores da orgulhosa simplicidade; seus escritos íntimos ampliados em telões a nos roçar a alma; os vestidos que desenhou, faceta estilosa de seu gênio múltiplo; e o vídeo sobre sua Pietá recuperada na França depois de meio século, milagrosa sobrevivente de bombardeios devastadores.

Talvez nenhum artista tenha dedicado mais olhares aos animais do que Turin: em bronze suas onças urram, caçam, brincam, amam, espreitam, meditam. E quando deixamos o imenso salão de sua vida e sua obra e piscamos à claridade do dia, o coração bate com orgulho de ser humano, este animal que, graças a Deus, não consegue viver sem arte.

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM, Pellegrini escreve às segundas-feiras.

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