Pajada fiscal (para ser lida no dedilhar de uma milonga)

Posted on 23/01/2015

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Rubem Penz*

Driblando a monotonia de uma reunião de condomínio, o Presidente do Conselho Fiscal resolveu ser criativo: apresentou o relatório em forma de versos. Tal qual um pajador, cantou o mandato do Síndico:

Para uma prosa faceira
Recorro a meus parcos versos
Minuciosos e coesos
Sem perder as estribeiras
Todos com eira e com beira
A voz do Conselho Fiscal
Aquela exigência legal
Prevista no regimento
Vizinhos, fiquem atentos
Desde o começo ao final

Aqui, como é bem normal
A pasta com as despesas
Colocada nesta mesa
Arquivos de nota fiscal
Recibos e um cabedal
De papéis e documentos
Compilando argumentos
Nada a se tirar ou se por
Quando muito, a bem compor
Apenas ajustamentos

Desculpem-me, avarentos
Pois para o bem da justiça
Há ressalvas que se faça:
Em termos de investimento
Receitas eu não invento
Nem mesmo necessidades
Não questiono qualidade
No dinheiro gasto a rodo
Refutei qualquer engodo
Para justo bem da verdade

Com toda sinceridade
Sem querer puxar o saco
– aparte que logo faço –
Não tenho contrariedades
Sobre a integridade
Do mandato transcorrido
Afirmo não ter havido
Nem um ato desonesto
Homenagem que logo presto
Ao vizinho tão querido

Dou meu ato concluído
No relatório assinado
Um aval patrocinado
Ao síndico, meu bom amigo
Por todos nós escalado
Sem antes e sem depois
O carro atrás dos bois
Nunca faltando dinheiro
Durante um ano inteiro
Escondendo o caixa dois

__________

*Rubem Penz, porto-alegrense de 1964, é publicitário, escritor e músico. Produz crônicas semanais desde 2003, inicialmente publicadas apenas na internet e, depois, em veículos do Brasil e exterior. Seu livro de estreia, O Y da questão e outras crônicas, foi finalista dos prêmios Açorianos de Literatura e Livro do Ano pela Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Atualmente é cronista do jornal Metro Porto Alegre. Desde 2008 ministra oficinas de crônicas em sua cidade natal, com destaque para a oficina Santa Sede – crônicas de botequim, que já alcança a quarta antologia. Em RUBEM escreve quinzenalmente às sextas-feiras.

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