Dois finais para a eternidade (Marco Antonio Martire)

Posted on 21/01/2015

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(Imagem: Marcelo Oliveira)

Marco Antonio Martire*

1. Je suis Charlie

O ataque à Charlie Hebdo abriu o ano marcando a eternidade com força devastadora. Difícil é não julgar esta civilização que tenta acomodar todos juntos no mesmo planeta, ela fracassa terrivelmente? Será que tem jeito?

Penso naqueles jovens ocidentais que se alistam nas fileiras de grupos radicais jihadistas, tentar entendê-los é pôr os dois pés em uma discussão que não tem fim. Repelimos de cara a tentação de nos sentirmos culpados por tamanha loucura, como se tivéssemos deixado faltar do melhor, afinal foram um dia nossas crianças. Mas eu tenho de dar testemunho, se discursar ajudasse, além de culpar aquela crise econômica que dizem ainda extermina sonhos e nega oportunidades, o que não justifica o terror (obviamente!), eu diria o seguinte: esses rapazes talvez sejam uma resposta cheia de paixão ao nosso mundo estéril de tantas queimadas, onde prolifera uma razão seca como casca de ferida.

Nosso mal não sara.

O tempo não dá remédio.

Vai durar para sempre: assistir ao noticiário do atentado na França foi sobretudo entristecer, porque percebemos imediatamente que vivemos a uma distância estúpida da paz. Nossos ideais extremamente perfeitos não têm bastado para seduzir o mundo, a civilização está desalinhada com a globalização, porque não funciona impor nada, esperamos que os outros percebam por si como somos melhores e olha a decepção! Pior ainda: tem gente do lado de cá, criada com leite e pão, que prefere dizer sim senhor a radicais extremistas e nos degolar nos desertos.

Eles preferem lutar lá e não cá.

Eles preferem as bombas aos empregos baratos.

2. Je suis insana e Joseph Campbell

Por aqui, junto aos males da nossa querida escrotidão nacional, andei esbarrando com a insana outra vez. Não sei mais dizer se nossos olhares se cruzam como testemunhas de uma dimensão impossível ou se o interesse mútuo é apenas impressão minha.

De qualquer forma, é divertido ver o que ela usa conforme o clima. Era um dia muito quente na ocasião e ela um breu feito muçulmana passou por mim no centro da cidade, não precisaria de um véu para provocar o seu mistério, certamente seguia no rumo de algum escritório. Fico curioso em saber o que estudou, lembro dela na praia e na noite carioca, acho difícil imaginar uma profissão: advogada? médica? engenheira?

Trato então de frear a imaginação, pois a realidade é certamente minha melhor ficção, onde ainda é delicioso amar e flertar com as paixões que nos cabem. A insana desfilava como se de véu sobre as calçadas portuguesas e eu evito imaginá-la, porque prefiro sentir que o desejo encontrou as portas daquele instante fechadas, a eternidade cobrando o valor do seu inimitável ingresso. Somente assim é possível se manter sedento e a vida vira uma aventura da qual não conhecemos nada.

Ela deve ter pensado outra vez: esse homem por aqui? Eu é que sim! Mais um dos nossos tantos melancólicos diante da ignorância da espécie, vez ou outra também louco com o tanto de boçalidade que prospera fora do lugar. Mas eu sigo em frente, contente de lembrar que a mulher esteve nos sonhos do primeiro homem e que um dia a gente chega lá. Sem esquecer da bela eternidade nas palavras de Joseph Campbell:

“Eternidade não é um tempo futuro, não é uma extensão longa de tempo, eternidade não tem nada a ver com o tempo. Eternidade é a dimensão do aqui e agora, que é eliminada se pensarmos no tempo. Se não conseguirmos experimentar isso aqui, não conseguiremos em nenhum outro lugar. A experiência da eternidade aqui e agora é a função da vida.”

Ah, eternidade, estarei sempre por aqui, ouviu?

(prometi dois finais, olha aqui o outro!)

Ah, eternidade, que bom que eu tenho você.

(escolha o que melhor lhe aprouver!)

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Marco Antonio Martire nasceu no Brasil em 1973 e formou-se em Comunicação Social pela UFRJ. Seu livro de estréia, Capoeira angola mandou chamar, ganhou o Prêmio Lucilo Varejão para obra inédita concedido pelo Conselho Municipal de Cultura da Cidade do Recife, tendo sido publicado em 2000. Marco edita suas obras de forma independente desde 2012 e publica suas crônicas no BLOGUI DO MARCO (www.obloguidomarco.blogspot.com), no CABANA DO LEITOR (http://cabanadoleitor.com.br/) e aqui na RUBEM quinzenalmente às quartas-feiras. Vive na cidade do Rio de Janeiro.

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