Tema único (Madô Martins)

Posted on 16/01/2015

0



Madô Martins*

Enquanto escrevo, a faxineira do prédio vizinho lava as áreas externas sob o sol das 13 horas, enfrentando uma temperatura que deve beirar os 40 graus. Há muito tempo não tínhamos um calor como este. Nem ficamos tão ameaçados pela falta d’água, já que andam raras as nuvens no céu e o clima é de deserto. A mídia e especialistas recomendam cautela no uso do líquido vital, mas uma ou outra atitude como a que vejo agora da janela mostra que a consciência coletiva falha, na hora de pensar no bem de todos.

Há alguns anos, conheci um membro da Sociedade Amigos da Água. Ele já difundia o perigo do consumo inconsequente, mas não era levado a sério. O tema ainda não fazia parte das discussões nem era relacionado com os direitos e deveres da cidadania. Atualmente, munícipes denunciam às autoridades situações de mau uso da água potável e combatem o desperdício com captadores da água das chuvas, reutilização da água servida para a lavagem de pisos etc. A sobrevivência já nos preocupa, a ponto de imaginarmos que uma terceira guerra mundial poderá acontecer na disputa pela água ou que a ciência precisará lhe arranjar substituto, para abastecer as próximas gerações.

Alarmismo? Até quando nossos rios, lagos e cachoeiras resistirão a tantas modificações climáticas? As estações não são as mesmas de antes, as árvores florescem várias vezes ao ano, pássaros e insetos migram fora das previsões, plantação e colheita se sucedem em ritmo alucinante, para alimentar cada vez mais bocas, chove, faz sol, frio e calor em um único dia, confundindo os ciclos da natureza e descaracterizando a paisagem.

Enquanto isso, por causa do calor, todos os aparelhos de ar condicionado permanecem ligados, ninguém mais se arrisca a andar a pé, vários banhos são tomados ao longo do dia, esvaziam-se as prateleiras de água mineral nos mercados e de filtros solares nas drogarias. Quase todo fim de tarde, um temporal espalha raios e trovões, causa enchentes, derruba árvores, interrompe o fornecimento de energia. Quando não, boa parte da população busca alívio nas praias, estendendo o banho de mar (morno) até a noite, ou nos barzinhos com ar refrigerado. Idosos e crianças refugiam-se nos shoppings e quem fica em casa aciona ventiladores, umidificadores e condicionadores, abre muitas vezes a geladeira, rega as plantas, lava cães e gatos.

Verão, nosso primeiro desafio do ano. E ainda faltam muitos e longos dias para que esta prova termine… Haja lucidez!

__________

Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 600 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

Anúncios
Marcado:
Posted in: Uncategorized