Sacada sem vista para o mar (Elyandria Silva)

Posted on 15/01/2015

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Elyandria Silva* 

A mulher surgiu de repente na sacada, era cedo, céu esbranquiçado, sem vida, sem cor. Uma jovem senhora, estatura baixa. Blusa de lã vermelha, cabelos curtos e cheios, cor marrom caju, se apoiou no parapeito da janela. Fumava, lentas baforadas, pele pálida, certamente por causa do cigarro, alguns fumantes poderão contestar, dizer que é por causa do estresse ou da má alimentação, que fulano ou sicrano fumou a vida inteira e tal. Outro dia, no caixa do supermercado, escutei a conversa de uma cliente, com um macacão florido, com a moça do outro caixa – contava uma história de um homem que estava com 91 anos, perguntaram para ele como tinha uma saúde de ferro com aquela idade e a resposta foi “Todo dia eu fumo um cachimbo”. A cliente do macacão florido estava entusiasmada, ora, ela também fumava todos os dias, não cachimbo claro, e a história do velhinho a confortava de alguma forma, preenchia as lacunas de seu medo de morrer de câncer de garganta. “O ser humano é assim mesmo, se alimenta de ilusões até que a realidade o abrace bem apertado e o sufoque”.

Na sacada era visível, pelo semblante tenso àquela hora da manhã, que a mulher tinha dormido e acordado com um problema, ele a perseguia, e ela não sabia como resolvê-lo. A cidade se estendia invisível à sua frente e, como em Fílide, do Calvino – Fílide é um espaço em que os percursos são traçados entre pontos suspensos no vazio, o caminho mais curto para alcançar a tenda daquele comerciante evitando o guichê daquele credor – as ruas, as esquinas, as pessoas e os carros sucumbiam à curta distância de dentro de seus olhos perdidos. O pior é que não tinha vista para o mar, só vista para os morros, o que por si só já bastaria para muitos, mas não para aquela mulher, com o rosto contorcido de preocupação e tristeza. Uma vez em Santos, caminhando pela praia e me divertindo com os prédios tortos, avisto um prédio com uma longa faixa com letras grandes e vermelhas “VENDE-SE APARTAMENTOS COM VISTA PARA O MAR. ÚLTIMAS UNIDADES!”. O problema é que os apartamentos ficavam no lado esquerdo e direito, não tinha apartamentos na frente, apenas um enorme e fino paredão com pastilhas verdes. Os ditos cujos eram com vista de lado para o mar. Imaginei os felizes proprietários todos os dias se pendurando na sacada e esticando o pescoço para ver o mar, orgulhosos por poderem contar aos amigos que acabaram de adquirir um lindo imóvel com vista para o mar. O surrealismo do consumismo é algo incompreensível!

A fumante da sacada finalmente encerrou seu ritual baforento, virou as costas e entrou. Terminei a série de exercícios para as coxas, não fumo e não tenho nenhum apartamento nem com vista nem de lado para o mar e, nas Cidades Invísiveis de Ítalo Calvino, minha preferida é Ândria.

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Elyandria Silva é escritora, autora de Labirinto de Nomes (Moleskine, 2012), Fadas de pedra(Design Editora, 2009, Contos) e de Um lugar, versos e retalhos (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas Contos jaraguaenses(Design Editora, 2007),Jaraguá em crônicas (Design Editora, 2007), Palavra em cena (Design Editora, 2010, Dramaturgia),Preliminares (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e Mundo infinito (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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