A festa dos burros (Domingos Pellegrini)

Posted on 12/01/2015

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Domingos Pellegrini*

No tempo em que os animais falavam, os burros deram uma festa.

Os burros, como sabe quem lida com eles, não são nada burros, tanto que às vezes parece que eles é que lidam com a gente. E essa inteligência dos burros vem desde aquele tempo.

Tão inteligentes eram, que resolveram “dar” a festa… pedindo aos outros.

Pediram aos leões que levassem carne:

– Afinal, vocês são tão fortes e gostam tanto de caçar…

Aos macacos pediram que levassem frutas:

– Vocês vivem nas árvores, e são tão ágeis!

Pediram às aves que levassem sementes:

– Só vocês alcançam as castanhas e as nozes e amêndoas, e conseguem descascar com esse bicos tão hábeis!

Deixaram o som a cargo das toupeiras, dizendo que só elas batiam tão bem os rabos no chão:

– Ninguém faz tum-tum como vocês!

As toupeiras, porém, não gostavam de trabalhar, e contrataram um bando de araras e outro bando de maritacas, além de umas arapongas, para ficarem cantando durante a festa.

Assim não se ouvia nada, e todos tinham de gritar, urrar e bramir para se entender.

Acabaram ficando todos roucos, irritados, ainda mais porque a comida demorava.

As raposas, quatis e gambás, sem ter o que trazer para a festa, concordaram alegremente em servir os convidados, mas serviam primeiro as carnes mais duras e as frutas amassadas, para sobrar para eles o melhor. Mas tiveram de comer escondido e depressa, e depois passaram mal.

Mas há quem diga que isso foi porque as carnes, trazidas pelos leões, estavam babadas e sujas de terra, pois leões não são delicados para comer como as aves.

As aves, entretanto, logo cansaram de quebrar tantas castanhas e nozes e amêndoas para tantos bichos, e passaram a entregar as sementes com casca e tudo, de modo que só mesmo elas conseguiam comer. Os bichos, enraivecidos com isso, enxotaram-nas (alguns dizem que as enxotaram, outros dizem que enxotaram elas, o certo é que foram lá para os altos galhos e, de birra, ficaram de-fe-can-do sobre a festa dos burros).

Os macacos aproveitaram a confusão para também subir nas árvores, levando as frutas, comendo e jogando para baixo as cascas.

Aquilo irritou tantos os elefantes que debandaram bramindo e derrubando árvores. As girafas também se retiraram, embora elegantemente. Mas os rinocerontes se foram pisoteando quem achassem pela frente.

No fim, todos acabaram indo embora com raiva, e prometeram nunca mais ir a uma festa dos burros.

Desde então, coisa mal feita, ou feita com aquela economia que é a base da porcaria, ou som alto em festa, ou serviço ruim, tudo isso passou a ser chamado de burrice.

Mas os burros, os burros mesmo, inteligentemente nunca mais fizeram festa, desde então esperando ser convidados para alguma festa melhor; mas os animais, sabe-se lá porque, deixaram de falar e ficou por isso mesmo.

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* Domingos Pellegrini é escritor, autor de contos, poesias, romances e romances juvenis. Ganhou o Prêmio Jabuti por suas obras “O Caso da Chácara Chão” e “O Homem Vermelho”, além de quatro outros Jabutis em segundo e terceiro lugares. Escreve crônicas para os jornais Gazeta do Povo e Jornal de Londrina. Na RUBEM, Pellegrini escreve às segundas-feiras.

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