Tudo pela glória (Raul Drewnick)

Posted on 04/01/2015

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Raul Drewnick*

Desde menino, o que ele sempre mais quis foi chamar a atenção. Nada o entusiasmava tanto. Perseguia compulsivamente a notoriedade e ansiava por ter o nome citado, a propósito de tudo e a propósito de nada. Na escola, mesmo quando o que se procurava era o autor da mutilação de um livro da biblioteca ou o suspeito de uma pichação obscena no pátio, estava sempre disposto a levantar a mão e a proclamar:

— Fui eu.

Se alguém duvidava de sua autoria, ele se desesperava, batia o pé, insistia:

— Fui eu, sim. Eu juro.

Essa disposição de até assumir culpas alheias para gozar alguns instantes de fama era confundida às vezes com generosidade e seu nome era pronunciado então com respeito nos corredores do colégio. Ele não se constrangia com a confusão. O que lhe importava era que, falando mal ou falando bem, falassem dele. Tanto fazia ser vilão ou herói, desde que fosse um vilão conhecido ou um herói decantado.

Na adolescência, a comichão de sucesso se acentuou. Nessa época, nada lhe dava maior prazer do que observar estátuas. Quase não havia nenhuma, na cidade, que não tivesse merecido a reverência extasiada dos seus olhos. Passava horas diante delas, imaginando a grandeza e a expressão que ele próprio teria quando o reconhecimento dos homens esculpisse em pedra seu direito à posteridade. Foi nesse tempo que cogitou de se dedicar à equitação, pensando como seria maior e mais imponente a sua glória eterna se ele pudesse ostentá-la em cima de um garboso cavalo.

Levado a um psicólogo pelo pai, preocupado com os tiques e a mania de grandeza do filho, descobriu na terceira ou quarta sessão que havia sobre ele a suspeita de ser um gloriabundo.

— E o que é um gloriabundo? – quis saber.

— Gloriabundo – respondeu o psicólogo – é uma pessoa obsessivamente preocupada em atingir a glória, o prestígio, o sucesso.

A partir desse dia, o da maravilhosa descoberta, ele teve ainda mais confiança em si mesmo: seria grande, seria notável. Quando se olhava no espelho, repetia, orgulhoso:

— Você é um gloriabundo! Você é um gloriabundo!

Passou a adolescência, mas não passou o ímpeto de ser célebre. Trabalhar para isso era seu maior desejo, seu único sonho, sua mais funda aspiração. E ele trabalhou. Não houve jornal que não recebesse suas furiosas cartas reclamando do calçamento irregular, dos preços altos, dos impostos abusivos, da contaminação dos alimentos, dos detritos atirados ao mar. Tantas reclamações fez, tantas cartas enviou, que certo dia notou, desapontado, não ter mais nenhuma reclamação a fazer e mais nenhuma carta a enviar.

Começou, então, a fase dos elogios. Passou a escrever melosas cartas enaltecendo programas radiofônicos, reportagens de revistas, inaugurações de viadutos, bandas de rock inglesas, duos pianísticos teutônicos. Um ano de reclamações e um ano de elogios quase o levaram à estafa, mas deram resultado. Já um vizinho comentava uma carta dele aqui, já outro mencionava o seu nome acolá. Um dia, garantiram-lhe que na semana seguinte uma comissão de moradores iria à sua casa convidá-lo a concorrer à presidência da associação dos amigos do bairro. Exultou. O caminho lhe parecia claro: presidente da associação, vereador, deputado, senador, presidente da República, estátua.

A semana seguinte chegou e logo na segunda-feira, de manhã, tocaram a campainha. A mulher do gloriabundo foi atender enquanto ele, excitadíssimo, esperava na sala. Só podia ser a tal comissão de moradores. Olhou pela fresta da cortina e viu apenas uma loira muito bonita. Devia ser a secretária da associação, imaginou. Um minuto depois, sua mulher voltou:

— Tem uma moça aí querendo falar com você. Ela se chama Glória.

Ele achou o nome bem apropriado para a ocasião e ordenou à mulher:

— Pode mandar a moça entrar. O que você está esperando? Eu já sei o que é.

A loira entrou e deu-lhe um sorriso tão tentador quanto as pernas que, ao se acomodar na cadeira, ela cruzou. Enquanto ele decidia se aceitava o convite imediatamente ou fazia charme, ela abriu a bolsa, tirou dela um papel e o colocou em cima da mesa. Sua voz era tão sedutora quanto as pernas e o sorriso:

— Eu sou da seguradora. É sobre a renovação da sua apólice.

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Raul Drewnick é jornalista, trabalhou 32 anos no Estado de São Paulo e na antiga revista Visão. Escrevia crônicas para o Caderno2 e para o caderno Cidades do Estadão, além da Vejinha/São Paulo, Jornal da Tarde e o antigo Diário Popular. Escreveu os livros de crônicas“Antes de Madonna” (Editora Olho d’Água) e “Pais, filhos e outros bichos” (Lazuli/Companhia Editora Nacional), além de ter feito parte de coletâneas e antologias. Possui um livro de contos e duas dezenas de novelas juvenis. Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos domingos. 

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