Na casa da mãe não se fala mal da esperança (Mariana Ianelli)

Posted on 03/01/2015

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Mariana Ianelli*

O filho não precisa dizer nada, a mãe já sabe. Vai fingir que não sabe só por amor, e é aí que um homem de repente se sente pequeno, ridiculamente pequeno, minúsculo como debaixo de uma sequoia. O que ele pensa que sofre, a mãe já sofreu muito antes dele, duas vezes mais se agora é o filho que sofre. Ela sabe o que dói nele e não diz, também evita escarafunchar perguntando.

Na casa da mãe não se fala mal da esperança. Tudo dorme debaixo daquele alto, largo, maciço tronco de dores cumuladas. Um dilúvio passou, bibliotecas de histórias passaram, e a mãe ali, só esperando para ver se tem alguma coisa que ainda não viu neste mundo. Ela sabe que o filho vem de longe, que é sempre de muito longe que ele volta para casa. Sabe também que a casa tem seus vultos, tem o frio de um sol oculto, a fina teia de um luto onde uma hora o filho cai desavisado. Ela sabe, ela entende, até concorda que ele não pode ficar mais muito tempo assim pequeno, é como num conto mágico, o filho chega com hora para ir embora.

Todas essas coisas que um filho não sabe ou prefere não saber que a mãe já sabe, a dor de filha que ele nem imagina que ela também sente, aquela culpa com ternura, espécie de torniquete, e ainda pensa que a mãe é que anda perdida, esquecida da vida, cansada. Não lembra que ela também tem suas reservas secretas, seu céu incomunicável, negociações surdas com Deus, assuntos inacessíveis ao filho, todas essas coisas só entre ela e a madrugada.

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Mariana Ianelli é escritora, mestre em Literatura e Crítica Literária pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, autora dos livros de poesia Trajetória de antes (1999), Duas chagas (2001), Passagens (2003), Fazer silêncio (2005 – finalista dos prêmios Jabuti e Bravo! Prime de Cultura 2006), Almádena (2007 – finalista do prêmio Jabuti 2008), Treva alvorada(2010) e O amor e depois (2012 – finalista do prêmio Jabuti 2013), todos pela editora Iluminuras. Como ensaísta, é autora de Alberto Pucheu por Mariana Ianelli,  da coleção Ciranda da Poesia (ed. UERJ, 2013). Estreou na prosa com o livro de crônicas Breves anotações sobre um tigre  (ed. ardotempo, 2013). Na RUBEM, escreve quinzenalmente aos sábados.

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