Dia da preguiça (Madô Martins)

Posted on 02/01/2015

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Madô Martins*

Sopra um vento quente, no primeiro dia de 2015, e tudo convida à preguiça. A véspera foi intensa, com espoucar de fogos (a maior queima de todos os tempos, segundo a mídia), comilanças desmedidas regadas a álcool, um calor senegalesco e emoções à flor da pele.

O sol acordou cedo, chamando para a praia, mas resisti. E permaneci até a tarde com sono, um sono muito próximo da preguiça. Depois de comer (demais, de novo), adormeci em sofá alheio, a convite da anfitriã, quase sem pudor. E sonhei com terras distantes e meu homem com a camisa arregaçada sobre o peito. Lá também a temperatura ia alta e acordei com sede.

Água em copo grande, metade gelada, pra refrescar o interior do corpo em brasa. Porque o calor do primeiro de janeiro queima, de tão intenso. Então me desfaço do pouco de descrição que me resta, e dispo as sandálias. Em contato com as tábuas do chão, penso na mãe, que me proibia de andar descalça, quando minha autonomia era dosada pela obediência, ó incoerência…

Mas hoje começou um novo ano e tudo se pode. Andar assim, dormir assim, comer assim. E escrever assim, flutuando na brisa do ventilador, como uma pipa. Dia da preguiça, em que vida parece tão fácil de amar, tão simples, tão afável. Vou demorar o mais que puder neste dia, se preciso, colar com fita adesiva as próximas folhas do calendário, dormir e sonhar até cansar… Amiga, me empresta o durex?

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 600 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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