(Des)Conto de Natal (Carlos Castelo)

Posted on 23/12/2014

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Carlos Castelo*

O Morro do Emborcado estava em polvorosa.

Quando entrou dezembro, Nenzinho e bando tomaram conta da boca. Os do Polaco foram brutalmente varridos do pedaço. E o mais incrível: Nenzinho contava apenas com 17 anos nas costas.

Muito por isso, apesar de todo o conhecimento nas artes do bem-traficar, ele ainda guardava um pedaço do menino ingênuo e catarrento que habitara aquelas palafitas.

A prova foi o que se deu na noite de 24 do mês.

Nenzinho andava nuns nervos descomunais. Nessa noite mandou Repinique, seu assistente-de-ordens, reunir toda a cambada no terreirão.

Liberou geral goró, farinha e outros breguetes. Só estranharam porque não rolava nenhum som. Quem começou a soar mesmo foi Nenzinho. Chegou nas frente dos brôs e deitou falação:

– Aí, gente boa, chega essa época fico maus. Todo mundo aqui já foi lascado. Agora tamos na fita, mas o estado de dureza machucou geral e pra sempre. Acreditei numa pá de coisa. Essa pá de coisa me decepcionou geral. Então, aí, tô só avisando. Ficar esperto que vai rolar parada diferente nesse Natal. Quem avisa, brother é!

A galera deu um “salve” desconfiado. Repinique fez sinal pra dispersar. Mandou ficar só a moçada firmeza: Toinho, Teco e Cosme Doido. Foram pra um canto do barraco receber as ordens.

– É procêis irem num shopping aí, ó. Sequestrar o Papai Noel e trazer aqui pro pedaço. São oito horas. Nenzinho quer o velho aqui antes da meia-noite – disse Repinique olhando o relógio.

Ordem dada, ordem feita. Meia hora antes da ceia chegava o Papai Noel do shopping Campo Limpo devidamente manietado. Cosme Doido falou:

– Tem o duende e a Mamãe Noel no porta-malas. Traz?

– Traz não – replicou Repinique – apaga que a ordem é só o velho.

Teco deu um teco em cada um e largou na guia, estrebuchando.

Papai Noel foi sentado num tamborete, as vendas retiradas dos olhos.

Foi quando Nenzinho entrou na saleta. Olhou para o homem assustado, todo trajado de roupas encarnadas e mandou:

– Lance seguinte: acreditei em tu, tá ligado? Coisa de menino, cara. Botei fé pra valer. Entrava dezembrão eu pedia pro Raimundo Celoura, lá da vendinha, pra escrever pra tu. Pedia só besteira: bola, meião, kichute. Tu alguma vez deu? Tô perguntado, velho pançudo, tu deu?

– Hofhgmfrum…

– Tira o pano da boca dele, Toinho!

– Mas, meu senhor, eu não sou Papai Noel. Meu nome é Jurandir, eu…

– Bota o pano na boca dele, Toinho!

Nenzinho estava rubro. Foi até a mesa, rasgou um papelote e chupou ventas adentro.

– Tão vendo? O cara vem aqui e diz que não existe! Seu Nicolau, muito feio mentir pras criancinhas…

Excitado com a cena, Teco engatilhou a Magnum e a encostou na cabeça do velho.

– Tu é muito porra, Papai Noel.

Foi empurrado contra a parede por Nenzinho, que deixou bem claro:

– Esse Papai Noel é meu. Só meu!

Depois deu outro berro:

– Tira o pano da boca dele, Toinho!

Na manhãzinha de 25 de dezembro, a central da PM recebe o seguinte rádio da unidade que monitorava o Morro.

– Positivo operante. Cabo Olinto monitorando o Emborcado. Aguardo IML, rabecão e patrulhinha de apoio. Ao que tudo indica fizeram uma malhação de judas no Papai Noel. Prossiga…

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* Carlos Castelo é escritor, letrista, redator de propaganda e um dos criadores do grupo de humor musical Língua de Trapo. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às terças-feiras. 

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