Lindolfo Paoliello e aquilo que o jornal não diz

Posted on 18/12/2014

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Ah, Minas Gerais, que tantos cronistas nos deu. Um deles, no entanto, anda bastante esquecido das discussões literárias: Lindolfo Paoliello, cronista do Estado de Minas nos anos 80, figura sobre quem é difícil achar alguma informação biográfica mesmo em tempos de Internet. Mas ele lançou várias coletâneas de crônicas, e uma delas, chamada “O país das gambiarras” (Record) reúne as que escreveu entre os anos de 1983 e 1986 – pega, portanto, o processo de reabertura democrática, as discussões para a elaboração de uma nova constituição, a morte de Tancredo Neves e o Brasil que, ai de nós, começava a ser governado pelo Sarney (personagem que por algum motivo era bem popular entre as crianças, como o cronista observou).

Lindolfo se mostra, sim, interessado na discussão de temas que afetavam o Brasil de então. Por vezes a sua visão dos problemas do país era acusada de ser meio pessimista, mas o próprio cronista explica que é apenas “a mania mineira de ver as coisas com realismo”. Aparentemente, esse seu interesse seria aprofundado em livros futuros, como “Banquete dos mendigos“, que é cheio de pequenas angústias sociais.

Mas Lindolfo não é um cronista político. Está atento ao noticiário, mas apenas na medida em dele pode se servir para conhecer a vida. Se alguma notícia não oferece os detalhes suficientes para satisfazer a curiosidade de Lindolfo, ele faz o que cabe a todo escritor, que é completar as lacunas com a sua imaginação. Imagina o que o jornal não diz, cria histórias – às vezes contos breves – e assim vai preenchendo o espaço da sua crônica, essa “literatura sob pressão”, como chama em um texto metalinguístico.

Diz o cronista neste mesmo texto: “A crônica é alçada do jornalismo para a literatura quando, em um esforço de transmutação, o cronista se transporta da observação dos fatos para, num mergulho ao interior de si mesmo, extrair daí uma obra de arte”. Tal foi a tentativa de Lindolfo, tipicamente um cronista.

Henrique Fendrich 

Trecho do livro:

“Ponho de lado o jornal e penso que intrigante mistério envolve a decisão do soldado Lima Fowler, que forjou seu próprio sequestro porque teve medo da reação de sua mulher ao se atrasar na volta para casa.

Salvo omissão ou erro na notícia, o soldado Fowler nada fez de errado, deliberadamente ou por imprudência, nem foi negligente. Atrasou-se, apenas isso, mas não quis pagar para ver o resultado: sumiu do mapa. (…) Ligou para a mulher, narrou sua desventura e passou oito dias sem dar notícia. (…)

A notícia é curta e minha imaginação dispara, adivinhando o que terá passado pela cabeça do soldado nessa sua vida paralela. O que o teria, de fato, levado a isso? O que terá feito durante esses oito dias? Agiu premeditadamente? Ou foi um impulso? Terá sido uma libertação? Ou uma aflição, uma agonia?

gambiarras

Lindolfo Paoliello – O país das gambiarras (Record)

Edição: 1986, 202 páginas 

Preço: a partir de míseros R$ 2,50 na Estante Virtual 

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