Causo de uma raposa, Cortázar e as teorias dominantes (Elyandria Silva)

Posted on 18/12/2014

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Elyandria Silva*

Ainda estava escuro, era noite. Pensei em chamar a polícia, mas o medo me paralisou. Os passos eram fortes, decididos, lembravam uma corrida desenfreada do Indiana Jones. A casa estava sendo tomada e eu nada poderia fazer àquela hora da madrugada. Vi-me sendo tirada da cama, de pijama e, sob a mira de uma arma, trancada num quarto enquanto a casa era assaltada e vasculhada. Por que subiram pelo telhado? Por que estavam caminhando em cima da casa?

Quando acordei fazia frio. O sol formava retângulos iluminados na cortina clara. Não fui assaltada. Passando pelos cômodos da casa conferi que tudo estava no lugar. Poderia ter sido um sonho, uma impressão, uma ilusão de começo de dia que se instala entre os sonhos e a realidade.

Poucos dias depois entro no quarto e me espanto com um cheiro insuportável. Algo como uma mistura de coco, mofo acentuado e alguma coisa que não tomava banho há anos. Vinha de um canto, no teto onde, aparentemente, não havia nenhum problema. Horas depois o cheiro desapareceu. Um mistério que me fez lembrar os passos pesados de noites atrás.

Trabalhando no computador, tarde da noite, acima da minha cabeça, por dentro do teto, era como alguém tivesse sentado e esfregado a bunda para descansar depois de uma longa caminhada. Era uma raposa. Ou um gambá. Ou um gato. Não, as evidências apontavam que era uma raposa. Ia e voltava todos os dias. Era minha mais nova companhia e moradora intimidante da casa. Nada mais Cortaziano que uma casa tomada por raposas.

“Os primeiros dias pareceram-nos penosos porque ambos havíamos deixado na parte tomada muitas coisas de que gostávamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene pensou numa garrafa de Hesperidina de muitos anos. Frequentemente (mas isso aconteceu somente nos primeiros dias) fechávamos alguma gaveta das cômodas e nos olhávamos com tristeza.” Em um conto polivalente o escritor Julio Cortázar conta a história de dois irmãos que moravam juntos na casa herdada da família. Ambos não casaram. Certo dia a casa é invadida, tomada por não se sabe exatamente o que. Aos poucos os dois são encurralados e a tensão atinge o ápice quando resta apenas um cômodo da casa para se esconderem. O conto desemboca em vários finais diferentes para a invasão. O mistério é o diamante do conto.

Raposas são mamíferos com focinho fino, orelhas pontudas, cauda peluda e olhos pequenos. Vivem, em média, 10 anos e possuem hábitos de vida crepusculares e noturnos. Ficam agressivas e podem morder quando enfrentadas. Esse era o medo, meu, dos bombeiros, de quem quisesse tirá-la do novo habitat. Descoberto o local por onde estava entrando fui aconselhada a não fechar, pois ela poderia ficar trancada e se tornar “louca”. Alertaram-me sobre a possibilidade de, num momento de stress da raposa, a mesma quebrar o gesso e entrar em casa. Passei a dormir com um cabo de vassoura perto da cama, uma faca de pão e um grande pedaço de plástico bolha. Essas eram minhas armas num possível ataque! Sofria ao imaginar a raposa quebrando o gesso, caindo em cima de mim e me assassinando para tomar a casa. Ou não poder sair do quarto pela manhã porque ela estava residindo nos outros cômodos.

Comecei a arquitetar um plano para me livrar dela que, pelo barulho, crescia a cada dia. Na loja de produtos agropecuários quatro funcionários me cercaram. Um interrogatório intimidador, caras feias e o silêncio final. Saí constrangida. Matar raposa é crime ambiental.

Perseguida pelas manchetes imaginárias “Cronista é condenada por assassinato de raposa”, “Assassina confessa da raposa a escritora pega quatro anos de prisão e deve cumprir pena em regime fechado”, desisti de me livrar dela. Aceitei. Teria que me acostumar. Eu sabia dos seus horários e barulhos, e ela dos meus.

Um dia ela estava brava e fungando, eu calma. Não fungo quando estou brava. A fungação foi aumentando. Já era quase um parente, me preocupei, queria ajudá-la. Teoria dominante: ela tinha engordado, não conseguiu mais sair e estava com fome. Liguei para órgãos competentes. Teria que quase desmontar a casa. Uma viagem me impediu de dar continuidade a uma possível solução. Deixei nas mãos do destino e para resolver quando voltasse. Ela é esperta, pensei, vai sair dessa.

A volta para casa foi com receio. Tudo certo após horas, nenhum barulho, nenhum cheiro, nada. Passou vários dias, tudo quieto. Um mês. Nunca mais. A raposa, ou o que quer que fosse, era passado. Teoria dominante: depois de dias sem comer ela emagreceu, conseguiu dar ré no lugar onde ficava (sim, ela entrava de frente e saía de ré) e saiu. Traumatizada com a fome que passou decidiu que, naquela casa amarela, nunca mais voltaria. E eu sempre me lembro dela!

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Elyandria Silva é escritora, autora de Labirinto de Nomes (Moleskine, 2012), Fadas de pedra(Design Editora, 2009, Contos) e de Um lugar, versos e retalhos (Design Editora, 2010, poesia). Escreve para o Correio do Povo e tem textos publicados nas coletâneas Contos jaraguaenses(Design Editora, 2007),Jaraguá em crônicas (Design Editora, 2007), Palavra em cena (Design Editora, 2010, Dramaturgia),Preliminares (Sesc, 2009, Contos e Poesia) e Mundo infinito (Design Editora, 2010, Contos). Na RUBEM, escreve quinzenalmente às quintas-feiras.

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