A Europa segundo Marques Rebelo

Posted on 16/12/2014

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Nos anos de 1951 e 1952, Marques Rebelo andou por vários países da Europa Ocidental e fez crônicas com as suas impressões para o vespertino “Última Hora”, do Rio de Janeiro. Lançado algum tempo depois no formato de livro, o conjunto dessas crônicas ganhou uma segunda edição neste ano de 2014, sob o título “Correio Europeu” (José Olympio), sem que os textos tenham sofrido grande envelhecimento – ao contrário, continuam saborosos como há 60 anos.

Marques Rebelo, é preciso que se diga, não é um cronista de viagem tradicional. Isto é, ele não é o tipo de pessoa que irá percorrer cada ponto turístico da cidade apenas para se encantar e exaltar as virtudes de cada lugar. A abordagem das suas crônicas – em geral, pequenas notas com ligeiras impressões e recortes de cenas cotidianas – é bem mais irônica, com comentários por vezes mordazes mesmo. São reflexões divertidas que nascem do estranhamento de quem não pertence aos lugares que visita, mas que não também não poupa a sua própria pátria.

Assim é que percorremos capitais e cidadezinhas de Portugal, Suíça, Inglaterra, Suécia, Dinamarca, Holanda, Bélgica, Alemanha, Espanha, Mônaco, Itália, Vaticano, São Marinho (“Realmente existe”) e França, acompanhando o cronista em suas idas a museus, catedrais e restaurantes, ouvindo curiosas histórias e lendas locais, além de comentários sarcásticos sobre usos e costumes. Um dos momentos mais interessantes do livro é a conversa que Marques Rebelo tem com a estátua de Voltaire na França, de onde é possível perceber muitas das suas opiniões sobre política, o Brasil, a Europa e o ser humano em geral.

Alguns trechos de suas crônicas:

Arnhem – Holanda

Cá temos uma cidade na qual gostaria de morar. Suponho que outro brasileiro já teve a mesma ideia, pelo menos, no jardim público há uma estátua de braço quebrado, e no lavabo do hotel, uma sublime inscrição.

Vaticano

As maiores decepções da minha vida – as pinturas da Capela Sistina e as coxas de uma Miss Espírito Santo, que eu vi na praia.

Nápoles

– Como Nápoles é bela!

– Toda a Itália é bela! – inflama-se a gorda.

– Belíssima – canta o coro.

– Mas onde eu posso ouvir uma canção típica? – quer saber Venceslau, espanhol de bigodinho.

– Só em Paris, meu caríssimo.

Paris

– Paris é uma delícia!

E ela me diz isso, a linda patriciazinha, com tal explosão de sinceridade, que não discordo, apenas concluo que delícia é uma chatice diferente.

correio

Correio Europeu – Marques Rebelo

José Olympio, R$ 32 

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