Gregorio Duvivier e a crônica inventiva

Posted on 08/12/2014

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Gregorio Duvivier – o cronista, pois são muitos – não se limita a narrar uma experiência pessoal, a contar uma história engraçadinha ou comovente do cotidiano, a comentar uma notícia do jornal, ou ainda a relembrar com nostalgia do passado, à maneira de tantos cronistas depois que Rubem Braga praticamente definiu os contornos do gênero. O que mais chama a atenção nas crônicas de Gregorio publicadas em “Put some farofa” (Companhia das Letras, 2014) é a ousadia criativa e a sua capacidade de brincar com a realidade, seja fazendo textos em que a primeira pessoa não é ele ou imaginando situações absurdas, como as conversas entre o Gregorio de hoje e o Gregorio do passado. É como se o cronista usasse como mote um “como seria se…” e a partir disso começasse a escrever. Como seria se um brasileiro tentasse fazer a recepção de boas vindas a um gringo durante a Copa do Mundo? – e a isso se seguiu um dos textos mais brincalhões do livro, cheio de achados linguísticos e de onde inclusive se tira o nome da obra.

Lá estão também textos em que a ironia se sustenta do começo ao fim, isto é, o cronista não se dá ao trabalho de explicar que está fazendo um gracejo. São características que filiam este livro a uma tradição iniciada na crônica pelo próprio Machado de Assis e que, de uns tempos para cá, tem se tornado cada vez mais rara. Já ninguém mais usa a crônica para dizer o contrário do que se pensa – pois se dizendo exatamente o que se pensa já se arrasta um turbilhão de incompreensões! E, embora Gregorio não tenha a mesma sutileza do Velho Bruxo, é de se imaginar que muitos leitores caiam nas armadilhas do seu texto. O cronista, nitidamente, se diverte escrevendo e criando. O resultado reforça a crônica como um gênero bastante inventivo e indissociável da literatura.

Também foram incluídos vários esquetes feitos para o Porta dos Fundos e é preciso dizer que eles funcionam muito bem como crônicas. É como se fossem aqueles diálogos que a gente se acostumou a ler nos textos do Verissimo – um bom sinônimo para cronista inventivo, e que é inclusive apontado por Gregorio como referência. É claro que toda essa criatividade não é sem propósito. Com ela o cronista espera mais do que algumas risadinhas: quer passar o seu ponto de vista sobre temas em discussão na sociedade. No caso de Gregorio, o seu humor normalmente se volta contra o conservadorismo (ele fala em “moda reaça”), sobretudo no que diz respeito à legalização da maconha, a homofobia e o aborto. O Deus em que não acredita também é um personagem recorrente.

Embora a maior parte das crônicas tenha mesmo um objetivo humorístico, existem outras quase líricas, como a do ascensorista que queria que o prédio fosse mais alto para poder ficar mais tempo conversando com as pessoas que usam o elevador. Há também alguns de cunho mais pessoal, como quando fala do amor de seus pais, da síndrome do seu irmão ou da sua vida de baixinho. Por fim, são feitos alguns tributos à algumas das inspirações de Gregorio, como Hugo Carvana, Ariane Mnouchkine, Millôr Fernandes e Monty Python. Mas o forte do livro são mesmos os textos humorísticos – e a coragem de quem ousa criar na crônica.

Henrique Fendrich

Trecho da obra:

Hello, Gringo! Welcome to Brazil. Não repara a bagunça. Don’t repair the mess. In Brazil we give two beijinhos. Em São Paulo, just one beijinho. If you are em Minas, it’s three beijinhos, pra casar. It’s a tradition. If you don’t give three kisses, you don’t marry in Minas. In the other places of Brazil, you can give how much beijinhos you want. In Rio, the beijinho is in the shoulder.

The house is yours. Fica à vontade. Qualquer coisa é só gritar. Shout. Mas keep calm. Como é que se fala keep calm em inglês? Here the things demoram. It’s better to wait seated. Everything is atrasado, it’s like subentendido that the person will be atrasada. For a meeting, it’s meia hora. For a party, it’s two hours. For a stadium, it’s one year. For the metrô, it’s forever

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Put some farofa – Gregorio Duvivier (Companhia das Letras, 2014)
208 páginas, R$ 29,90

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