Alegre caminhante (Madô Martins)

Posted on 05/12/2014

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Madô Martins*

Você devia escrever sobre ele – sugeriu o amigo de praia de quem só sei o prenome. E comecei a pensar no sujeito de nossa conversa, de quem nem o nome sei e faz parte da coleção de desconhecidos íntimos que vamos juntando pela vida, gostando deles gratuitamente seja pelo jeitão, pelo que fazem ou dizem, pelas lembranças que nos evocam, pelo prazer que proporcionam a cada encontro.

Este em questão começou a frequentar a praia em mau estado físico. Solitário, alto e forte, apresentava uma das pernas como se tivesse sofrido fratura exposta e o gesso não resultara numa emenda perfeita do osso. Andava com dificuldade, auxiliado por uma muleta e a tal perna enfaixada. Chamava atenção e inspirava pena, porque parecia sentir dor, a cada passo.

Mas não foi exatamente por sua aparência que o amigo, eu e vários outros andarilhos de beira-mar começamos a reparar nele. O que o diferenciava de outros deficientes era o empenho em desejar bom dia a quem por ele passasse, um cumprimento sincero e caloroso, olho no olho, sorriso nos lábios, sem esperar resposta. Falava as duas palavras em alto e bom som, por vezes lançando-as de longe para quem viesse na direção contrária.

Já faz meses que dividimos o mesmo espaço de areia e, nesse tempo, pudemos perceber que ele foi melhorando lentamente, persistindo na caminhada sem nunca esquecer de distribuir a saudação matinal. Hoje, anda sem curativos ou apoio e quase não manca. Já ninguém sente dó dele, ao contrário, todos logo o avistamos com satisfação e esperamos ansiosos por seu bom dia, experimentando a cumplicidade de quem o viu na pior e agora o sente recuperado.

E ele continua passando por nós, sem que tenhamos descoberto seu nome, onde mora, o que lhe aconteceu para dificultar os movimentos, quem o está tratando. Ao contrário de outros, ele não se mostra carente da compaixão alheia nem disposto a expor sua história. Apenas passa, exercitando o andar com as canelas mergulhadas no mar e um sorriso generoso, de onde brotam muitos bom dia.

“Às vezes, a gente está pra baixo e basta apenas um bom dia bem dado, para nos reanimar. Esse cara consegue isso. Você devia escrever sobre ele…”, argumentou o amigo.

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Madô Martins é escritora e jornalista, com 12 livros publicados e mais de 600 crônicas impressas aos domingos no jornal A Tribuna, de Santos/SP. Na RUBEM, escreve quinzenalmente às sexta-feiras.

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